Acúmulo de Resíduos Sólidos e Responsabilidade Ambiental do Município

Sinopse

Um morador acumula compulsivamente resíduos sólidos no quintal de sua residência, transformando-o em depósito a céu aberto. O mau cheiro, os vetores de doenças e o risco sanitário avançam sobre a vizinhança. O Ministério Público age e obtém decisão judicial determinando a limpeza. Mas o poluidor direto não consegue cumprir a ordem — não por recusa, mas por doença mental.

O Município, chamado a intervir subsidiariamente, resiste. Sustenta que a obrigação é pessoal, que não deu causa ao dano e que executar a limpeza no lugar do particular extrapolaria suas competências. O caso chega ao Tribunal de Justiça de Minas Gerais.

A Câmara, por maioria, nega provimento ao recurso municipal. Quando o poluidor não pode, o Estado deve — esse é o núcleo da decisão. A responsabilidade ambiental não desaparece porque seu destinatário primeiro está incapacitado; ela se desloca para quem detém o poder de polícia sanitária e o dever constitucional de proteção ao meio ambiente.

Mas nem todos concordam. O voto vencido do Des. Pedro Aleixo levanta uma provocação que merece atenção: se o problema é a incapacidade do poluidor, o caminho adequado não seria a interdição civil, em vez da condenação direta do Município? Afinal, quem deveria agir — e por qual via — quando o direito ambiental encontra os limites da saúde mental?

O que está realmente em jogo aqui?

Ficha do Caso
Tribunal TJMG — Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais
Processo 1.0000.24.407105-6/001
Relator(a) Des. Jair Varão
Data do Julgamento 07.02.2025
Área do Direito Direito Ambiental / Direito Administrativo / Direito Civil
Assunto Responsabilidade ambiental do Município por omissão — acumulação compulsiva — execução subsidiária — poder de polícia sanitária
Questões Jurídicas 1. A incapacidade fática do poluidor converte a responsabilidade subsidiária do Estado em obrigação direta? 2. O Município pode ser responsabilizado por omissão no exercício do poder de polícia sanitária? 3. As astreintes são adequadas contra ente público em matéria ambiental?
Complexidade

Resultado Negaram provimento ao recurso do Município. Voto vencido: Des. Pedro Aleixo.

Materiais do Caso

Documentos do Caso

Caso Criado — Modelo Dedutivo

Três níveis de profundidade, do iniciante ao avançado. Escolha o seu ponto de partida.

Caso Explicado — Modelo Indutivo

Material Complementar

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O Caso

Seu João mora sozinho em uma casa numa pequena cidade do interior. Há alguns anos, ele começou a juntar todo tipo de objeto: garrafas, caixas, roupas velhas, restos de comida, entulho. Com o tempo, o acúmulo tomou conta do quintal, invadiu a calçada e passou a atrair ratos, baratas e moscas. Os vizinhos não aguentam mais o mau cheiro. Dona Maria, que mora ao lado, conta que já não consegue abrir as janelas de casa.

O problema é que Seu João sofre de um transtorno mental que o faz acumular coisas de forma compulsiva. Ele não faz isso por maldade — simplesmente não consegue parar. A Prefeitura já mandou equipes para limpar o terreno várias vezes, mas, semanas depois, tudo volta ao mesmo estado. Diante dessa situação, o Ministério Público decidiu entrar na Justiça pedindo que a Prefeitura assuma a limpeza periódica do local e fiscalize para que o problema não se repita.

Mas afinal, quem está pedindo o quê nessa história?

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Quem quer o quê?

Quem quer o quê, de quem, e por quê?
Quem? Quer o quê? De quem? Por quê?
Parte autora Ministério Público Que a Prefeitura limpe o terreno todo mês e fiscalize para evitar novo acúmulo Da Prefeitura (Município) O lixo acumulado causa risco à saúde de toda a vizinhança, e o morador não consegue resolver sozinho por causa de seu transtorno mental
Parte requerida Prefeitura (Município) Não ser obrigada a limpar — diz que a responsabilidade é do dono do terreno Do Ministério Público (que ajuizou a ação) Alega que cada proprietário deve cuidar do seu imóvel e que o governo não pode assumir essa tarefa indefinidamente
Quando alguém não consegue cuidar do próprio terreno e isso prejudica toda a vizinhança, quem deve resolver o problema?

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A Pergunta

Pense na situação: Seu João está doente. Ele não acumula lixo porque quer, mas porque seu transtorno mental o impede de agir de outra forma. A Prefeitura já tentou limpar, mas o problema sempre volta. Enquanto isso, Dona Maria e os outros vizinhos convivem com ratos, insetos e mau cheiro todos os dias.

A pergunta que o juiz precisou responder foi: se o morador não tem condições de cuidar do próprio terreno e a sujeira coloca em risco a saúde de todos ao redor, o governo municipal deve assumir essa responsabilidade?

Ou será que cada um cuida do que é seu, e pronto?

Existe uma regra para isso? Veja o que a lei diz.

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A Regra

Proteção à saúde pública e ao meio ambiente Constituição Federal, art. 225 + Lei 12.305/2010 (Política Nacional de Resíduos Sólidos) + Código de Posturas Municipal

Se…

  • ?
    Existe acúmulo de resíduos que coloca em risco a saúde da comunidade?
  • ?
    O Município tem o dever de zelar pela higiene pública e pelo meio ambiente?
  • ?
    O responsável direto pelo terreno não consegue resolver o problema sozinho?

Então…

O Município deve intervir para proteger a saúde da comunidade, realizando a limpeza e fiscalizando o local.
Será que esses requisitos estão presentes no caso de Seu João?

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Aplicando a Regra ao Caso

Verificação dos requisitos

  • Existe acúmulo de resíduos que coloca em risco a saúde da comunidade? Sim. O terreno de Seu João está tomado por lixo, entulho e restos de comida. O acúmulo atrai ratos, baratas e moscas, causando mau cheiro e risco de doenças (zoonoses) para toda a vizinhança.

  • O Município tem o dever de zelar pela higiene pública e pelo meio ambiente? Sim. A Constituição Federal (art. 225) determina que o poder público deve proteger o meio ambiente. A Lei de Resíduos Sólidos e o Código de Posturas Municipal também atribuem ao Município o dever de garantir condições sanitárias adequadas.

  • O responsável direto pelo terreno não consegue resolver sozinho? Sim. Seu João sofre de transtorno mental que o leva a acumular objetos compulsivamente. Mesmo após várias limpezas feitas pela Prefeitura, ele volta a acumular. Não se trata de má vontade, mas de uma condição de saúde que o impede de manter o terreno limpo por conta própria.
Todos os requisitos estão presentes. Por isso, o Tribunal decidiu que a Prefeitura deve realizar a limpeza periódica do terreno e fiscalizar o local, já que o morador não tem condições de fazer isso sozinho e a situação coloca em risco a saúde de toda a vizinhança.
E se a história fosse um pouco diferente?

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E se fosse diferente?

Variação 1 — E se Seu João não tivesse nenhum problema de saúde mental?

Imagine que Seu João fosse uma pessoa saudável que simplesmente decidiu não limpar o terreno por preguiça ou desleixo. Nesse caso, a situação mudaria bastante. O Município ainda poderia ser cobrado a agir — afinal, o risco à saúde pública continua existindo. Mas a Prefeitura teria muito mais força para exigir que o próprio Seu João arcasse com os custos da limpeza e até aplicar multas por descumprimento do Código de Posturas. A responsabilidade pessoal do morador seria muito maior.

Resultado provável: O Município poderia usar seu poder de fiscalização para obrigar o morador a limpar, inclusive com multas. A obrigação de limpeza periódica às custas da Prefeitura seria mais difícil de justificar.

Variação 2 — E se a Prefeitura já tivesse um programa de coleta que atendesse o bairro?

Agora imagine que a Prefeitura mantivesse um programa de coleta seletiva porta a porta, com equipes passando toda semana no bairro de Seu João. Se, mesmo assim, o problema persistisse — porque Seu João acumula dentro do terreno e se recusa a colocar o lixo para fora —, a questão ficaria diferente. A Prefeitura poderia argumentar que já cumpre sua parte e que o problema está na recusa (involuntária, pelo transtorno) do morador em cooperar.

Resultado provável: Mesmo com o programa de coleta, o Tribunal provavelmente manteria a obrigação da Prefeitura de intervir diretamente no terreno, justamente porque o transtorno de Seu João impede que ele colabore com a coleta regular. O dever do Município de proteger a saúde pública não desaparece só porque existe um serviço genérico disponível.

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Leia a Decisão

Vá direto à fonte

O caso que você acabou de ler foi criado a partir de uma decisão judicial real. Você pode ler o documento original — o acórdão.

O que procurar:

  1. Vá até o final do documento — a parte chamada “dispositivo”.
  2. Quem ganhou? Por quê?
  3. Você concorda com a decisão?

Quer ir mais fundo?

No Estudo Dirigido, você vai entender de onde vem essa regra, como ela se conecta com o sistema jurídico e por que existem regras parecidas que levam a resultados diferentes.

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Resíduos Urbanos e o Dever Municipal de Proteção Ambiental

Questão jurídica central: A incapacidade fática do poluidor direto pode excepcionar a regra de execução subsidiária da responsabilidade ambiental do Estado?

Seção 1

Identificação e Questão Jurídica

Caso: Resíduos Urbanos e o Dever Municipal de Proteção Ambiental

Área: Direito Ambiental e Direito Administrativo

Nível: Intermediário (graduação em Direito, 1.º a 3.º período)

Instituto central: Responsabilidade ambiental do Estado por omissão no dever de fiscalização e gestão de resíduos sólidos

Questão jurídica: Quando o poluidor direto não possui condições fáticas de cumprir a obrigação de fazer imposta judicialmente — por limitação decorrente de transtorno mental —, o Município pode ser obrigado a atuar diretamente na remoção dos resíduos, em vez de responder apenas subsidiariamente?

O que aconteceu? Quem são os envolvidos e quais fatos geraram o conflito?

Seção 2

Narrativa Fática

Na cidade de Serra das Vertentes, município do interior com cerca de 35 mil habitantes, o Sr. Osvaldo, 72 anos, aposentado, reside sozinho em imóvel próprio no bairro Jardim das Flores, área predominantemente residencial. Conhecido pela vizinhança como “Seu Vadinho”, o morador é figura notória na região: frequenta a praça central todas as manhãs para alimentar pombos, conversa com os comerciantes do entorno e é descrito por alguns vizinhos como “pessoa de bom coração, mas de hábitos esquisitos”.

Há aproximadamente oito anos, os vizinhos começaram a perceber que o Sr. Osvaldo acumulava materiais no quintal: garrafas PET, papelão, restos de móveis, entulho de construção civil e peças de eletrodomésticos antigos. Inicialmente, ele dizia estar “separando materiais para reciclagem” e “guardando coisas que ainda servem”. Com o passar dos anos, o volume cresceu de forma significativa. O imóvel — um terreno de 360 m², com construção de dois cômodos na frente — passou a ter o quintal inteiramente tomado por pilhas de materiais que atingiam a altura do muro (cerca de 2 metros).

Além dos resíduos sólidos, o Sr. Osvaldo passou a criar animais sem qualquer controle sanitário: aproximadamente 15 cães, 8 gatos, galinhas e patos, todos em situação de confinamento no mesmo espaço ocupado pelos resíduos. Os animais não recebiam acompanhamento veterinário. Vizinhos relataram a presença constante de ratos, baratas e moscas no entorno, além de odor intenso que se agravava nos meses de verão.

Dona Marta, vizinha de muro, registrou ao menos seis reclamações na Secretaria Municipal de Meio Ambiente ao longo de cinco anos. O Sr. Antônio, presidente da associação de moradores do bairro, encaminhou abaixo-assinado com 47 assinaturas à Câmara de Vereadores solicitando providências. O vereador Joaquim Ferreira chegou a visitar o local e publicou fotos em rede social, mas nenhuma medida legislativa foi adotada.

A Prefeitura de Serra das Vertentes, por meio da Secretaria de Obras e da Secretaria de Meio Ambiente, realizou quatro operações de limpeza no imóvel, nos anos de 2018, 2019, 2021 e 2022. Em cada uma delas, foram retiradas entre 3 e 5 toneladas de resíduos, com uso de caminhão-caçamba e equipe de garis. Contudo, em todas as ocasiões, o Sr. Osvaldo voltou a acumular materiais em poucas semanas. A Secretaria de Meio Ambiente lavrou dois autos de infração (em 2019 e 2021) com base na Lei Municipal n.º 1.642/95 (Código Municipal de Posturas), que veda o acúmulo de materiais que causem risco sanitário em áreas residenciais. As multas foram aplicadas mas jamais cobradas.

Em 2022, o filho do Sr. Osvaldo, Renato, que mora em outra cidade, procurou a Unidade Básica de Saúde do bairro relatando que o pai “não conseguia parar de juntar coisas” e que “ficava agressivo quando tentavam tirar os objetos do quintal”. O médico da UBS encaminhou o Sr. Osvaldo para avaliação psiquiátrica. O laudo do psiquiatra, datado de março de 2023, concluiu que o paciente apresenta transtorno de acumulação (CID-11: 6B24), condição que compromete significativamente sua capacidade de organizar e descartar bens, embora não implique interdição civil completa. O laudo observou que o Sr. Osvaldo “compreende, em termos gerais, a ilicitude de sua conduta, mas não dispõe de liberdade moral suficiente para abster-se do comportamento compulsivo sem acompanhamento terapêutico adequado”.

Em junho de 2023, a Vigilância Sanitária municipal realizou inspeção e constatou: (i) presença de larvas de Aedes aegypti em recipientes com água parada; (ii) fezes de animais misturadas aos resíduos; (iii) risco de desmoronamento de pilhas de entulho sobre a calçada; (iv) impossibilidade de acesso de bombeiros ao imóvel em caso de incêndio. O relatório da Vigilância classificou a situação como “risco iminente à saúde pública”. O Sr. Osvaldo é evangélico praticante e frequenta cultos três vezes por semana — o pastor da igreja tentou intermediar a situação sem sucesso.

Diante da reiteração das condutas e da inércia das medidas administrativas, o Ministério Público Estadual ajuizou Ação Civil Pública com pedido de tutela de urgência, em face do Município de Serra das Vertentes e do Sr. Osvaldo, pleiteando: (a) condenação do Município à remoção mensal dos resíduos, com fiscalização periódica do imóvel e inspeção veterinária dos animais; (b) condenação do Sr. Osvaldo a abster-se de acumular resíduos e de manter animais em condições insalubres; (c) fixação de astreintes em caso de descumprimento.

O juiz da Vara Cível de Serra das Vertentes julgou procedentes os pedidos. Condenou o Município a realizar limpeza mensal do imóvel, fiscalizar periodicamente o local e providenciar inspeção veterinária dos animais, sob pena de multa diária de R$ 500,00, limitada a R$ 50.000,00. Condenou o Sr. Osvaldo a abster-se de acumular resíduos sólidos e de manter animais em condições de insalubridade, sob pena de multa diária de R$ 200,00, limitada a R$ 20.000,00.

O Município interpôs recurso de apelação, alegando que a obrigação de remoção de resíduos em imóvel particular é do proprietário (poluidor direto), cabendo ao Poder Público apenas o dever de fiscalização. Argumentou que a responsabilidade estatal, em matéria ambiental, é de execução subsidiária: o Estado só age quando o poluidor direto não cumpre a obrigação.

Conhecidos os fatos, quem quer o quê, de quem, e por quê?

Seção 3

Elementos da Ação

Nesta seção, vamos decompor a demanda judicial nos seus elementos fundamentais, utilizando o mantra do Método UNMANI: quem quer o quê, de quem, e por quê? Cada elemento está conectado ao art. 319 do CPC, que estabelece os requisitos da petição inicial.

Elementos da Ação — Quem quer o quê, de quem, e por quê?
Quem quer o quê? Elemento da Ação Parte Autora Parte Requerida
Quem? Partesart. 319, II, CPC Ministério Público Estadual — atua com legitimidade extraordinária (art. 5.º, I, Lei 7.347/85), em defesa do meio ambiente e da saúde pública, direitos difusos de titularidade da coletividade Município de Serra das Vertentes (omissão no dever de fiscalização e gestão de resíduos) e Sr. Osvaldo (poluidor direto, responsável pelo acúmulo). Litisconsórcio passivo necessário: a solução exige atuação conjunta de ambos os réus.
Quer o quê? Pedidoart. 319, IV, CPC Pedido imediato: condenação em obrigação de fazer (remoção, fiscalização, inspeção veterinária) e obrigação de não fazer (abstenção de acumular). Pedido mediato: restauração de meio ambiente urbano salubre e proteção da saúde pública. Contra o Município: limpeza mensal + fiscalização periódica + inspeção veterinária, sob astreintes de R$ 500/dia (limite R$ 50 mil). Contra o Sr. Osvaldo: abstenção de acumular resíduos e manter animais em insalubridade, sob astreintes de R$ 200/dia (limite R$ 20 mil).
De quem? Legitimidade passivaart. 319, II, CPC O MP dirige a pretensão contra dois réus com fundamentos distintos, formando litisconsórcio passivo. Município: legitimidade decorrente do dever constitucional de proteção ambiental (CF, art. 225) e do dever legal de gestão de resíduos (Lei 12.305/2010, art. 10) e poder de polícia (Lei Municipal 1.642/95). Sr. Osvaldo: legitimidade como poluidor direto (Lei 6.938/81, art. 3.º, IV).
Por quê? Causa de pedirart. 319, III, CPC Causa de pedir fática: acúmulo crônico de resíduos sólidos e criação descontrolada de animais em imóvel urbano, com risco sanitário comprovado (larvas de Aedes aegypti, fezes, risco de desabamento), reiterado apesar de quatro limpezas municipais. Morador possui laudo atestando transtorno de acumulação. Causa de pedir jurídica: CF, art. 225 (direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado); Lei 12.305/2010, art. 10 (dever municipal de gestão de resíduos); Lei 6.938/81, art. 3.º, IV (poluidor); Lei Municipal 1.642/95 (código de posturas). O Município alega que sua responsabilidade é apenas fiscalizatória e que a obrigação de remoção recai sobre o poluidor direto (execução subsidiária). O Sr. Osvaldo não apresentou defesa substancial quanto ao mérito.

Nota sobre a legitimidade do MP: O Ministério Público não é titular do direito material discutido. Ele atua como substituto processual, exercendo legitimidade extraordinária conferida pela Lei 7.347/85. Isso significa que o MP propõe a ação em nome próprio, mas em defesa de direito alheio — no caso, o direito difuso da coletividade ao meio ambiente equilibrado.

Onde esse problema se situa no sistema jurídico?

Seção 4

Posição no Sistema

O caso se situa na interseção entre o Direito Ambiental e o Direito Administrativo, com implicações de Direito Civil (capacidade e função social da propriedade). O instituto central é a responsabilidade ambiental, que no ordenamento brasileiro possui regime próprio e mais rigoroso que a responsabilidade civil comum.

O Direito Ambiental brasileiro adota a responsabilidade objetiva do poluidor — isto é, independente de culpa (Lei 6.938/81, art. 14, par. 1.º). Quando o Estado figura como corresponsável, a jurisprudência do STJ consolidou a tese da responsabilidade solidária de execução subsidiária: o Poder Público responde solidariamente pelo dano ambiental, mas só é chamado a executar a obrigação quando o poluidor direto não cumpre. Essa é a regra geral.

O caso que vamos estudar coloca à prova os limites dessa regra: o que acontece quando o poluidor direto, por condição pessoal (transtorno mental), não possui a capacidade fática de cumprir a obrigação? A resposta do tribunal foi reconhecer uma exceção à subsidiariedade, impondo a execução direta ao Município.

Responsabilidade Ambiental
├── Responsabilidade do poluidor direto (Lei 6.938/81, art. 3.º, IV)
│ └── Objetiva — teoria do risco integral
│ └── Independe de culpa, nexo causal amplo
├── Responsabilidade do Estado por omissão
│ ├── Solidária de execução subsidiária (posição STJ) REGRA GERAL
│ │ └── Estado responde somente se o poluidor direto não cumprir
│ └── Solidária de execução direta EXCEÇÃO (este caso)
│ └── Quando o poluidor não dispõe de liberdade moral para cumprir
└── Dever municipal de gestão de resíduos (Lei 12.305/2010, art. 10)
├── Coleta, transporte e destinação final
├── Fiscalização (poder de polícia ambiental)
└── Legislação local (Lei Municipal 1.642/95)

Observe que o mapa conceitual revela três “camadas” de responsabilidade: a do poluidor direto, a do Estado como corresponsável e a do Estado como detentor do dever autônomo de gestão de resíduos. A tensão do caso está entre a segunda e a terceira camada.

Quais são os pressupostos que a norma exige para que o direito se configure?

Seção 5

Pressupostos Normativos

Vamos agora examinar os pressupostos normativos na forma SE … ENTÃO. Cada pressuposto é uma condição que, uma vez preenchida, conduz ao resultado jurídico. Neste caso, não basta demonstrar o dano ambiental: é preciso percorrer uma cadeia de pressupostos que vai do dano à excepcionalidade da execução direta pelo Município.

Responsabilidade ambiental do Estado com execução direta CF, art. 225 + Lei 6.938/81 + Lei 12.305/2010
1. Dano ambiental configurado
Fundamento: CF, art. 225, caput, c/c Lei 6.938/81, art. 3.º, III. Meio ambiente ecologicamente equilibrado é direito de todos. Degradação ambiental é toda alteração adversa das características do meio ambiente.
Conceito: O dano ambiental pode ser material (contaminação do solo, proliferação de vetores) ou imaterial (redução da qualidade de vida da vizinhança). Não exige prova de culpa — a responsabilidade do poluidor é objetiva.
Neste caso: Acúmulo de toneladas de resíduos sólidos com presença comprovada de larvas de Aedes aegypti, fezes de animais e risco de desmoronamento. Relatório da Vigilância Sanitária atesta “risco iminente à saúde pública”. O dano é concreto e atual.
2. Omissão do poder público no dever de fiscalização e gestão
Fundamento: CF, art. 225, par. 1.º, c/c Lei 12.305/2010, art. 10, e Lei Municipal 1.642/95.
Conceito: O Município tem o dever legal de gerenciar os resíduos sólidos em seu território e de exercer o poder de polícia ambiental. A omissão relevante não é a simples inação, mas a deficiência na fiscalização e no controle — especialmente quando o Poder Público tem ciência do dano e não adota medidas eficazes.
Neste caso: O Município foi notificado por vizinhos, pela associação de moradores e pela Vigilância Sanitária. Realizou quatro limpezas pontuais, lavrou dois autos de infração, mas jamais cobrou as multas nem instituiu programa de acompanhamento contínuo. A fiscalização existiu, mas foi insuficiente — o dano se perpetuou por oito anos.
3. Nexo de causalidade entre a omissão e a perpetuação do dano
Fundamento: Lei 6.938/81, art. 14, par. 1.º. A responsabilidade solidária do Estado decorre do fato de que sua omissão contribuiu para a manutenção ou agravamento do dano.
Conceito: O nexo causal na omissão estatal é normativo: se o Estado tinha o dever de agir e não agiu (ou agiu insuficientemente), a permanência do dano lhe é juridicamente atribuível. A jurisprudência do STJ reconhece que o Estado é responsável solidário, ainda que de execução subsidiária (AREsp 1.728.895/DF, Rel. Min. Herman Benjamin, 2.ª T/STJ).
Neste caso: A cada limpeza pontual, o Município tinha ciência de que o Sr. Osvaldo voltava a acumular resíduos. A ausência de medidas estruturais (programa de acompanhamento, internação compulsória, ou ação judicial própria) permitiu que o dano se agravasse ano após ano.
4. Incapacidade fática do poluidor direto
Fundamento: CC, art. 4.º (capacidade relativa), c/c o conceito de liberdade moral desenvolvido pela filosofia do direito.
Conceito: A liberdade moral é a capacidade real do sujeito de conformar sua conduta às exigências jurídicas. Conforme Jean-Jacques Rousseau, citado no acórdão, a liberdade moral “torna o homem verdadeiramente senhor de si mesmo” (Do Contrato Social, Edipro, 2020, p. 43). Quando o poluidor não dispõe dessa liberdade — por transtorno mental que compromete o controle sobre o comportamento de acumulação —, a subsidiariedade da execução estatal perde seu pressuposto lógico: não se pode esperar que cumpra primeiro quem, por limitação psíquica, não consegue cumprir.
Neste caso: O laudo psiquiátrico atesta que o Sr. Osvaldo possui transtorno de acumulação (CID-11: 6B24), com comprometimento significativo da capacidade de descartar bens. Embora compreenda, em termos gerais, a ilicitude de sua conduta, não dispõe de liberdade moral para abster-se do comportamento compulsivo. A aplicação de multas e ordens judiciais ao morador, isoladamente, é ineficaz — o que justifica a atuação direta do Município.

Nota: A referência a Rousseau é citação da citação — a obra foi mencionada pelo julgador no acórdão original, não consultada diretamente pela UNMANI.

SE há dano ambiental configurado, E o Município foi omisso no dever de fiscalização e gestão, E essa omissão contribuiu para a perpetuação do dano, E o poluidor direto não dispõe de capacidade fática para cumprir a obrigação, ENTÃO o Município responde diretamente pela execução da obrigação ambiental — a regra da subsidiariedade é excepcionada.
Como esse instituto se distingue de figuras jurídicas semelhantes?

Seção 6

Distinções

Para compreender a solução adotada neste caso, é fundamental distinguir três modalidades de responsabilização ambiental do Estado. Embora todas se fundamentem no dever constitucional de proteção ao meio ambiente (CF, art. 225), elas diferem quanto ao momento e à forma de atuação do Poder Público.

Critério Responsabilidade direta do poluidor Responsabilidade subsidiária do Estado Responsabilidade direta do Estado (este caso)
Quem executa primeiro? O poluidor direto, como único obrigado principal O poluidor direto; o Estado só age se aquele não cumprir O Estado atua diretamente, sem aguardar o cumprimento pelo poluidor
Quando se aplica? Quando o poluidor é identificável e tem capacidade de cumprir Regra geral quando há omissão estatal e o poluidor é capaz Exceção: quando o poluidor não dispõe de capacidade fática (ex.: transtorno mental)
Fundamento legal Lei 6.938/81, art. 3.º, IV e art. 14, par. 1.º CF, art. 225 + Lei 6.938/81 (construção jurisprudencial do STJ) CF, art. 225 + Lei 12.305/2010, art. 10 + ausência de liberdade moral do poluidor
Papel do Estado Fiscalização e, se necessário, execução forçada contra o poluidor Garante residual — executa a obrigação se o poluidor falhar Executor primário — o dever de proteção ambiental se converte em dever de prestação direta
Direito de regresso Não se aplica (poluidor é o próprio obrigado) Estado pode buscar ressarcimento do poluidor Estado pode buscar ressarcimento, mas a efetividade é reduzida pela condição do poluidor

A distinção central reside na ordem de execução. Na regra geral (subsidiária), o Estado funciona como uma rede de segurança: age apenas quando o poluidor direto falha. No caso excepcional que estudamos, essa ordem se inverte porque o poluidor direto, por limitação psíquica, não pode cumprir — e o meio ambiente e a saúde pública não podem aguardar indefinidamente.

Outra distinção importante: este caso não se confunde com a ação de direito de vizinhança (CC, art. 1.277). Naquela, o vizinho individualmente lesado pede a cessação das interferências prejudiciais ao uso de seu imóvel — é uma demanda entre particulares, de natureza individual. Aqui, o instrumento é a ação civil pública, movida pelo MP em defesa de direito difuso, e o objeto é mais amplo: a proteção do meio ambiente urbano e da saúde pública como bens coletivos.

Como esses pressupostos se aplicam concretamente aos fatos narrados?

Seção 7

Aplicação ao Caso

Vamos agora realizar a subsunção — operação lógica pela qual verificamos se os fatos do caso preenchem cada um dos pressupostos normativos identificados na Seção 5.

Pressuposto 1 — Dano ambiental configurado

Os fatos atendem ao pressuposto. O imóvel do Sr. Osvaldo contém toneladas de resíduos sólidos acumulados há oito anos, com presença comprovada de vetores de doenças (larvas de Aedes aegypti), fezes de animais em contato com os resíduos, risco de desabamento sobre via pública e impossibilidade de acesso para combate a incêndio. A Vigilância Sanitária classificou a situação como “risco iminente à saúde pública”. O dano ambiental é concreto, atual e documentado — não se trata de mero incômodo.

Pressuposto 2 — Omissão do Município

O Município não foi completamente inerte: realizou quatro limpezas e lavrou dois autos de infração. Contudo, a atuação foi insuficiente. As limpezas foram pontuais (sem programa de acompanhamento), as multas jamais foram cobradas, e nenhuma medida estrutural foi adotada em oito anos (como encaminhamento do morador a serviço de saúde mental ou ajuizamento de ação própria). A omissão relevante não é a inação total, mas a deficiência na gestão: o Município sabia do problema, tentou soluções paliativas e não obteve resultado — mas não escalou suas providências. O dever previsto no art. 10 da Lei 12.305/2010 é de gestão integral, não de intervenções esporádicas.

Pressuposto 3 — Nexo causal (omissão → perpetuação do dano)

Cada limpeza pontual demonstra que o Município tinha ciência da reincidência. A ausência de monitoramento contínuo e de medidas preventivas permitiu que o acúmulo se reconstituísse após cada intervenção. Se o Município tivesse instituído fiscalização periódica efetiva ou providenciado o encaminhamento do morador a tratamento de saúde mental desde as primeiras ocorrências, o dano poderia ter sido contido. A relação entre a omissão qualificada e a perpetuação do dano é juridicamente demonstrável.

Pressuposto 4 — Incapacidade fática do poluidor direto

O laudo psiquiátrico atesta que o Sr. Osvaldo possui transtorno de acumulação (CID-11: 6B24), condição que compromete sua capacidade de descartar bens. Ele compreende, em termos gerais, que o acúmulo é irregular, mas não consegue controlar o comportamento compulsivo sem acompanhamento terapêutico. A aplicação isolada de astreintes contra o morador é ineficaz: multas não alteram um comportamento determinado por transtorno psíquico. A liberdade moral — capacidade real de conformar a conduta à norma — está ausente. Isso excepciona a lógica da subsidiariedade: se o poluidor não pode cumprir primeiro, não há sentido em esperar seu cumprimento para só então acionar o Estado.

Resultado da subsunção

Todos os quatro pressupostos estão preenchidos. Portanto, a consequência jurídica se impõe: o Município responde pela execução direta da obrigação de fazer ambiental (remoção periódica dos resíduos, fiscalização e inspeção veterinária), sem necessidade de aguardar o inadimplemento do poluidor direto. A subsidiariedade cede diante da incapacidade fática do particular.

Merece destaque a existência de voto vencido na decisão real que inspirou este caso. O entendimento divergente sustentava que o Município deveria responder apenas pela fiscalização, mantendo-se a obrigação de remoção sobre o poluidor direto. Essa posição prestigia a regra geral da subsidiariedade, mas desconsidera a particularidade central: um poluidor que, por transtorno mental, não dispõe de condições de cumprir a obrigação por si mesmo.

E se os fatos fossem diferentes — a solução jurídica se alteraria?

Seção 8

Variações

As variações abaixo alteram um fato relevante da narrativa e pedem que se analise se o resultado jurídico se mantém ou se modifica. Essa é uma técnica essencial do raciocínio jurídico: testar os limites de uma regra mudando as premissas fáticas.

Variação 1 — E se o morador fosse plenamente capaz e acumulasse resíduos por desídia?

Imagine que o Sr. Osvaldo não possui nenhum transtorno mental. Ele é plenamente capaz e acumula materiais simplesmente porque não quer se desfazer deles — por comodidade, desinteresse ou teimosia. As reclamações dos vizinhos são as mesmas, o dano ambiental é o mesmo.

Análise: Nesse cenário, o pressuposto 4 (incapacidade fática do poluidor) não se preenche. O morador possui liberdade moral para cumprir a obrigação. A responsabilidade do Município retorna à regra geral: solidária de execução subsidiária. Primeiro, exige-se o cumprimento pelo poluidor direto (inclusive com astreintes e outras medidas coercitivas); somente se ele não cumprir é que o Município será chamado a executar a obrigação. O resultado jurídico se altera: a exceção à subsidiariedade desaparece.

Variação 2 — E se o Município tivesse programa efetivo de coleta e fiscalização no bairro?

Imagine que o Município de Serra das Vertentes possui programa estruturado de coleta seletiva, com visitas semanais ao bairro Jardim das Flores, fiscalização ambiental periódica e agentes de saúde que monitoram o imóvel do Sr. Osvaldo. Apesar de tudo isso, o morador continua acumulando resíduos nos intervalos entre as coletas.

Análise: Nesse cenário, o pressuposto 2 (omissão do Município) estaria enfraquecido ou afastado. Se o Poder Público demonstra atuação diligente e contínua — e não meramente pontual —, a tese de omissão perde força. O nexo causal (pressuposto 3) também se fragiliza: se o dano persiste apesar de fiscalização efetiva, a causa preponderante é a conduta do poluidor, não a deficiência estatal. O resultado poderia se alterar: o Município poderia ser eximido da obrigação de remoção direta, restando-lhe apenas o dever de manter a fiscalização (posição que o voto vencido sustentou no caso real).

Variação 3 — E se os vizinhos, individualmente, ajuizassem ação de direito de vizinhança?

Imagine que, em vez de o MP ajuizar ação civil pública, Dona Marta e outros vizinhos ajuízem, individualmente, ação com fundamento no direito de vizinhança (CC, art. 1.277), pedindo a cessação do uso nocivo do imóvel pelo Sr. Osvaldo e indenização por danos morais.

Análise: O instrumento processual e o fundamento jurídico mudam completamente. A ação de direito de vizinhança é individual (tutela o interesse particular do vizinho, não o direito difuso ao meio ambiente). O réu seria apenas o Sr. Osvaldo (proprietário do imóvel), não o Município — porque o direito de vizinhança regula relações entre particulares, não o dever estatal de gestão ambiental. Os vizinhos poderiam obter ordem para cessação do uso nocivo e indenização, mas dificilmente conseguiriam impor ao Município obrigações de remoção e fiscalização. A dimensão coletiva e ambiental da demanda se perderia, e a proteção seria mais limitada.

Seção 9

Leia a Decisão

Estude o acórdão original

Agora que percorremos os pressupostos normativos e aplicamos cada um deles aos fatos, é hora de confrontar a análise com o raciocínio do tribunal. Leia o acórdão original e identifique:

  1. Qual norma o tribunal aplicou como fundamento principal? Observe se o tribunal partiu do dever constitucional (CF, art. 225) ou se privilegiou a legislação infraconstitucional (Lei 12.305/2010, Lei 6.938/81). Compare com os pressupostos que estudamos.
  2. Qual foi o argumento determinante para o resultado? Preste atenção especial ao conceito de liberdade moral e à forma como o tribunal tratou a incapacidade fática do poluidor. Esse foi o ponto que diferenciou a solução da regra geral de subsidiariedade.
  3. A decisão foi unânime? Houve voto vencido? Identifique a posição do voto divergente e analise: o que o voto vencido sustentava? Por que a maioria não acolheu essa posição? Qual dos dois entendimentos parece mais adequado?
  4. Compare a regra SE → ENTÃO que estudamos com o raciocínio do tribunal. Os pressupostos que identificamos correspondem aos que o tribunal utilizou? O tribunal acrescentou algum elemento que não consideramos, ou descartou algum que incluímos?

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Acumulação Compulsiva, Meio Ambiente e os Limites da Responsabilidade Municipal

Questão jurídica central: A incapacidade fática do poluidor pode converter a responsabilidade subsidiária do Estado em obrigação direta de remoção de resíduos?

Passo 1

Identificação e Questão Jurídica

Ficha de Identificação do Caso
Tipo de ação Ação Civil Pública (Lei 7.347/85)
Parte autora Ministério Público do Estado
Partes requeridas Município (ente federativo) e morador (pessoa física com Transtorno de Acumulação)
Objeto Obrigação de fazer (remoção periódica de resíduos e fiscalização sanitária) e obrigação de não fazer (abstenção de novo acúmulo)
Fase processual Apelação cível interposta pelo Município contra sentença de procedência
Área do Direito Direito Ambiental / Direito Administrativo / Direito Civil (capacidade e vizinhança)
Questão principal Quando o poluidor direto não possui condições fáticas de cessar a degradação ambiental, a responsabilidade solidária de execução subsidiária do Município pode ser convertida em obrigação direta?
Complexidade





O que aconteceu? Quem são as partes e quais fatos geraram o conflito?

Passo 2

Narrativa Fática

Seu Geraldo, 74 anos, aposentado como ferroviário, mora há quase cinco décadas em uma casa de alvenaria no Bairro das Acácias, zona urbana de uma cidade de médio porte no interior do Estado. A casa, herdada de seus pais, ocupa um lote de 360 m² em rua residencial arborizada, a dois quarteirões de uma escola municipal de ensino fundamental e a cerca de 500 metros de um córrego tributário do rio principal que abastece a região.

Até 2016, a residência não apresentava qualquer irregularidade perante a prefeitura. Seu Geraldo vivia com a esposa, Dona Terezinha, professora aposentada da rede estadual. Vizinhos de longa data descreviam o casal como reservado, gentil, com um jardim bem cuidado e hábito de oferecer café a quem passasse pela calçada. A rotina mudou de forma gradual, mas perceptível, após o falecimento de Dona Terezinha em março de 2017, vítima de complicações pulmonares.

Nos meses que se seguiram ao funeral, Seu Geraldo passou a recolher objetos das calçadas do bairro durante caminhadas matinais: móveis descartados, eletrodomésticos quebrados, sacolas plásticas com roupas usadas, garrafas PET, jornais velhos, caixas de papelão. No início, os vizinhos interpretaram o comportamento como excentricidade inofensiva de um viúvo enlutado. A filha mais velha, Helena, funcionária administrativa de um hospital privado na capital, visitava o pai a cada quinze dias e tentava organizar os objetos acumulados no quintal.

Em meados de 2018, o volume de materiais acumulados já era visível da rua. Sacos empilhados no muro lateral da casa formavam uma barreira que excedia a altura do portão. O quintal, antes utilizado para uma pequena horta, estava inteiramente tomado por entulho, madeira apodrecida, carcaças de eletrodomésticos e lixo orgânico misturado a restos de embalagens. A garagem, o corredor lateral e dois dos três cômodos da casa estavam inacessíveis. Seu Geraldo dormia em um colchão no canto da cozinha, o único espaço minimamente transitável.

Os vizinhos R.S., morador do imóvel contíguo à esquerda, e a família T.M., residente à direita, começaram a registrar queixas formais junto à Secretaria Municipal de Meio Ambiente. A primeira denúncia data de setembro de 2018 e relata “acúmulo de lixo em quantidade alarmante, com proliferação de ratos, baratas e moscas, e odor fétido insuportável, especialmente nos meses de calor”. A Vigilância Sanitária municipal realizou vistoria em outubro de 2018 e constatou a presença de vetores de zoonoses, risco de incêndio e condição insalubre do imóvel. O relatório técnico recomendou limpeza imediata e acompanhamento psicossocial do morador.

Entre novembro de 2018 e dezembro de 2022, a Secretaria de Obras municipal realizou cinco intervenções de limpeza no imóvel, cada uma mobilizando caminhões, equipes de garis e agentes de endemias. A primeira operação removeu aproximadamente 12 toneladas de resíduos sólidos. Em todas as cinco ocasiões, Seu Geraldo resistiu à entrada das equipes, posicionando-se na porta e pedindo que não levassem “as coisas da Terezinha”. Nas três últimas intervenções, foi necessária a presença da Guarda Municipal para garantir o acesso. Após cada limpeza, o imóvel retornava à condição anterior em período que variou de três a seis meses.

A partir de 2020, animais de rua passaram a frequentar o imóvel. Seu Geraldo começou a alimentá-los, e gradativamente cerca de quinze gatos e sete cachorros estabeleceram moradia no local. Os animais não possuíam vacinação, não eram castrados e defecavam livremente entre os resíduos acumulados. A Vigilância Sanitária, em vistoria de março de 2022, identificou a presença de fezes de animais em decomposição misturadas a restos de alimentos, com indícios de contaminação do solo.

Helena, a filha, preocupada com a deterioração da saúde mental do pai, custeou consulta psiquiátrica particular em junho de 2022. O laudo do Dr. F.P., psiquiatra com CRM ativo, diagnosticou Seu Geraldo com Transtorno de Acumulação (CID-11: 6B24), associado a episódio depressivo moderado (CID-10: F32.1) desencadeado pelo luto. O laudo concluiu que o paciente “apresenta grave comprometimento da capacidade de organizar e descartar objetos, com insight parcial sobre a condição, sendo improvável a cessação voluntária do comportamento sem acompanhamento psicoterapêutico e, eventualmente, farmacológico de longo prazo”. Helena tentou cadastrar o pai no CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) do Município, mas foi informada de que não havia vaga para atendimento ambulatorial regular, apenas para crises agudas.

O Código de Posturas do Município (Lei Municipal 1.642/95) proíbe, em seus arts. 4.º, 5.º e 7.º, o acúmulo de materiais que comprometam a salubridade pública em imóveis urbanos, atribuindo ao proprietário ou possuidor a obrigação de manter o imóvel limpo, sob pena de multa diária e execução compulsória da limpeza às expensas do infrator.

Em agosto de 2023, após nova denúncia de vizinhos e relatório da Vigilância Sanitária atualizado, o Ministério Público estadual ajuizou Ação Civil Pública com pedido de tutela de urgência, incluindo entre os réus tanto o Município quanto Seu Geraldo. Os pedidos contra o Município foram: (i) obrigação de realizar limpeza mensal do imóvel enquanto persistir a situação; (ii) obrigação de manter fiscalização sanitária periódica; (iii) obrigação de providenciar inspeção veterinária dos animais. Contra Seu Geraldo, pediu-se: (iv) obrigação de abster-se de acumular novos resíduos; (v) obrigação de franquear acesso às equipes de limpeza.

O juízo de primeiro grau julgou procedentes todos os pedidos. Ao Município foram fixadas astreintes de R$ 500,00 por dia de descumprimento, com limite de R$ 50.000,00. A Seu Geraldo, astreintes de R$ 200,00 por dia, com limite de R$ 20.000,00. O Município interpôs recurso de apelação, sustentando que a obrigação de limpeza caberia exclusivamente ao poluidor direto, e que sua responsabilidade deveria limitar-se à fiscalização.

Elementos para reflexão

Fatos relevantes: acúmulo crônico de resíduos, diagnóstico de Transtorno de Acumulação, cinco intervenções municipais insuficientes, presença de animais sem controle sanitário, proximidade com escola e corpo hídrico, ausência de vaga no CAPS.

Fatos aparentemente irrelevantes (mas potencialmente decisivos): a profissão de ferroviário (aposentadoria pelo INSS, sem vínculo com o Município); a distância do córrego (500 metros — configura ou não risco de contaminação hídrica?); o café oferecido aos vizinhos (relação comunitária anterior ao conflito).

Elementos para distinguishing: Seu Geraldo não foi interdito judicialmente; não é absolutamente incapaz; o Município realizou cinco intervenções (não se omitiu inteiramente); não há pedido de interdição nos autos; a filha reside em outra cidade.

O que realmente importa nessa narrativa? Quais fatos são neutros — e poderiam mudar de peso se a pergunta jurídica fosse outra?

Identificados os fatos, quem quer o quê, de quem, e por quê?

Passo 3

Anatomia da Pretensão

Anatomia da Pretensão — Quem quer o quê, de quem, e por quê?
Quem quer o quê? Dimensão (TGD) Parte Autora (MP) Partes Requeridas
Pessoas
Quem? Partes / Legitimidade Ministério Público estadual — legitimidade extraordinária (art. 129, III, CF; art. 5.º, Lei 7.347/85) para tutela de direitos difusos (meio ambiente) e individuais indisponíveis (saúde pública) 1.º Réu: Município — ente federativo com dever de poder de polícia ambiental e sanitária (art. 23, VI e VII, CF; LC 140/2011).
2.º Réu: Seu Geraldo — pessoa física, poluidor direto (art. 3.º, IV, Lei 6.938/81), portador de Transtorno de Acumulação (CID-11: 6B24), com capacidade civil formalmente preservada (não interdito)
Bens
O quê? Bens jurídicos tutelados Meio ambiente ecologicamente equilibrado (art. 225, CF) — direito difuso, transgeracional, indisponível Saúde pública e salubridade do entorno; direito de vizinhança (art. 1.277, CC); função social da propriedade (art. 5.º, XXIII, CF; art. 1.228, §1.º, CC)
Relações Jurídicas
Pedido imediato Pretensão / Tutela pretendida Condenação em obrigação de fazer: (i) remoção mensal de resíduos; (ii) fiscalização sanitária periódica; (iii) inspeção veterinária. Obrigação de não fazer: abstenção de novo acúmulo Município: obrigações (i), (ii) e (iii), com astreintes de R$ 500/dia (limite R$ 50 mil).
Seu Geraldo: obrigações (iv) abstenção e (v) franquear acesso, com astreintes de R$ 200/dia (limite R$ 20 mil)
Pedido mediato Bem da vida Restauração e manutenção de ambiente urbano salubre — cessação da degradação ambiental e sanitária Restituição do equilíbrio ambiental na área afetada, com proteção da saúde coletiva (vizinhos, alunos da escola, comunidade) e do próprio morador
Causa de Pedir Analítica
Causa de pedir fática Fatos constitutivos Acúmulo crônico e crescente de resíduos sólidos e animais em imóvel urbano residencial; insalubridade documentada por laudos da Vigilância Sanitária; proliferação de vetores de zoonoses; cinco intervenções municipais insuficientes para cessar o dano; diagnóstico de Transtorno de Acumulação (CID-11: 6B24) que compromete a capacidade fática do morador de controlar o comportamento; proximidade de escola e corpo hídrico
Causa de pedir jurídica Institutos jurídicos Responsabilidade ambiental objetiva do poluidor direto; responsabilidade solidária do ente público por omissão no exercício do poder de polícia ambiental; execução subsidiária convertida em direta pela incapacidade fática do poluidor; violação da função social da propriedade; ofensa ao direito de vizinhança
Causa de pedir legal Dispositivos normativos CF art. 225, caput e §3.º; CF art. 23, VI e VII; Lei 6.938/81 arts. 3.º, IV, 4.º, VII, 14, §1.º; Lei 12.305/2010 arts. 3.º, 10, 30; LC 140/2011; Lei 7.347/85 art. 3.º; CC arts. 186, 927, 1.228, §1.º, 1.277; Lei Municipal 1.642/95 arts. 4.º, 5.º, 7.º; Lei 10.216/2001 (reforma psiquiátrica); Lei 9.605/98 art. 70
Diante desses fatos, quais questões jurídicas precisam ser respondidas?

Passo 4

Questões Jurídicas

1. Questão principal

A incapacidade fática do poluidor direto — pessoa que, por transtorno mental diagnosticado, não possui condições concretas de cessar o comportamento degradante — é suficiente para converter a responsabilidade solidária de execução subsidiária do Município em responsabilidade de execução direta?

2. Questões secundárias

  • Limites do poder de polícia municipal: a obrigação de limpeza mensal excede o dever de fiscalização inerente ao poder de polícia? Pode o Judiciário impor ao Município obrigação de prestação material contínua (remoção periódica) sem ofensa à separação de poderes?
  • Proporcionalidade das astreintes: multa diária de R$ 500,00 ao ente público e R$ 200,00 a um aposentado com renda presumivelmente limitada é adequada como meio coercitivo? A multa imposta a pessoa com transtorno mental atinge sua finalidade?
  • Responsabilidade compartilhada (Lei 12.305/2010): o regime de responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida dos produtos alcança a situação de acumulação compulsiva doméstica, ou se restringe à cadeia produtiva?

3. Questões processuais

  • Legitimidade ativa do MP: é adequada a tutela simultânea de direitos difusos (meio ambiente) e individuais indisponíveis (saúde do morador) na mesma ACP?
  • Cumulação de obrigações: é admissível a cumulação de obrigação de fazer (remoção) com obrigação de não fazer (abstenção de acúmulo) em face de réus distintos, com regimes de responsabilidade diversos (objetiva para o poluidor, subjetiva por omissão para o Município)?
  • Uso de força policial: a determinação de franquear acesso pode autorizar, indiretamente, o ingresso coercitivo em domicílio? Quais os limites constitucionais (art. 5.º, XI, CF)?
  • Litisconsórcio passivo necessário: a filha Helena — que acompanha o pai e custeou laudo — deveria integrar a lide como litisconsorte?

4. Questões ocultas ou potenciais

  • Intersecção saúde mental e meio ambiente: como compatibilizar o direito ao meio ambiente equilibrado com os direitos da pessoa com transtorno mental (Lei 10.216/2001), especialmente o direito a tratamento em ambiente comunitário (art. 2.º, parágrafo único, IX)?
  • Ausência de interdição: o Município pode exigir a interdição de Seu Geraldo como condição para assumir a obrigação de limpeza? A não interdição impede o reconhecimento da incapacidade fática?
  • Papel da assistência social: a omissão municipal alcança não apenas o poder de polícia ambiental, mas também a obrigação de prover assistência social (art. 203, CF)? A ausência de vaga no CAPS configura omissão autônoma?
  • Direitos dos animais: a presença de animais em condições inadequadas configura maus-tratos (art. 32, Lei 9.605/98)? Quem responde — o morador, o Município, ou ambos?
  • Liberdade moral e autonomia: até que ponto o respeito à autonomia da pessoa com transtorno mental limita a intervenção estatal? Onde termina a autonomia e começa o dever de proteção?
Onde esse conflito se posiciona no ordenamento jurídico?

Passo 5

Posição no Sistema

Este caso se posiciona na interseção de três grandes ramos do Direito, tendo como eixo central a responsabilidade ambiental do Estado por omissão. A complexidade reside justamente no fato de que a situação não se resolve inteiramente dentro de nenhum dos ramos isoladamente: é preciso transitar pelo Direito Ambiental (responsabilidade do poluidor e do Estado), pelo Direito Administrativo (poder de polícia, dever de fiscalização), pelo Direito Civil (capacidade, vizinhança, função social da propriedade) e pelas políticas públicas de saúde mental.

No âmbito da responsabilidade ambiental, a posição consolidada do STJ distingue entre a responsabilidade do poluidor direto (objetiva, baseada na teoria do risco integral) e a responsabilidade do Estado por omissão (solidária, mas de execução subsidiária). Este caso desafia exatamente essa regra ao propor que circunstâncias excepcionais — a incapacidade fática do poluidor — podem converter a execução subsidiária em direta.

Direito Ambiental
├── Responsabilidade ambiental
│ ├── Do poluidor direto (Lei 6.938/81, art. 3.º, IV + art. 14, §1.º)
│ │ ├── Objetiva — teoria do risco integral
│ │ └── Independe de culpa ou dolo
│ ├── Do Estado por omissão
│ │ ├── Solidária de execução subsidiária (posição STJ) ← REGRA
│ │ └── Solidária de execução DIRETA ← EXCEÇÃO (este caso)
│ └── Compartilhada (Lei 12.305/2010, art. 30)
│ └── Ciclo de vida dos produtos — geradores, fabricantes, distribuidores
├── Poder de polícia ambiental municipal
│ ├── CF art. 23, VI e VII (competência comum)
│ ├── LC 140/2011 (cooperação federativa)
│ ├── Código de Posturas (Lei Municipal 1.642/95)
│ │ └── Arts. 4.º, 5.º, 7.º — obrigação do proprietário
│ └── Fiscalização sanitária (Vigilância Sanitária)
│ └── Controle de vetores de zoonose
└── Intersecção com outros ramos
├── Direito Civil
│ ├── Capacidade civil (CC arts. 3.º e 4.º)
│ │ └── Incapacidade fática ≠ incapacidade jurídica formal
│ ├── Função social da propriedade (CF art. 5.º, XXIII + CC art. 1.228, §1.º)
│ └── Direito de vizinhança (CC art. 1.277)
│ └── Uso anormal da propriedade
├── Direito Administrativo
│ ├── Dever estatal de prestação (art. 225, §1.º, CF)
│ ├── Omissão administrativa como concausa
│ └── Reserva do possível vs. mínimo existencial
└── Direito da Saúde Mental
├── Lei 10.216/2001 (reforma psiquiátrica)
├── Direito a tratamento comunitário
└── Liberdade moral e autonomia da pessoa com transtorno
Quais normas e princípios fundamentam a análise dessas questões?

Passo 6

Fundamentação Legal

Constituição Federal de 1988

  • Art. 5.º, XI — Inviolabilidade do domicílio
  • Art. 5.º, XXIII — Função social da propriedade
  • Art. 23, VI e VII — Competência comum para proteger o meio ambiente e preservar florestas, fauna e flora
  • Art. 129, III — Legitimidade do MP para promover ACP
  • Art. 170, VI — Defesa do meio ambiente como princípio da ordem econômica
  • Art. 196 — Saúde como direito de todos e dever do Estado
  • Art. 203 — Assistência social a quem necessitar
  • Art. 225, caput e §§1.º e 3.º — Direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado; dever do Poder Público de defendê-lo; responsabilização do poluidor

Legislação federal

  • Lei 6.938/81 (Política Nacional do Meio Ambiente)
    • Art. 3.º, IV — conceito de poluidor
    • Art. 4.º, VII — imposição ao poluidor da obrigação de reparar o dano
    • Art. 14, §1.º — responsabilidade objetiva por dano ambiental
  • Lei 12.305/2010 (Política Nacional de Resíduos Sólidos)
    • Art. 3.º — definições (resíduos sólidos, geradores)
    • Art. 10 — incumbência dos Municípios na gestão de resíduos
    • Art. 30 — responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida dos produtos
  • LC 140/2011 — Cooperação federativa em matéria ambiental
  • Lei 7.347/85 — Ação Civil Pública (art. 3.º — obrigação de fazer e não fazer; art. 5.º — legitimidade do MP)
  • Lei 9.605/98 — Crimes ambientais (art. 32 — maus-tratos a animais; art. 70 — infração administrativa ambiental)
  • Lei 10.216/2001 — Reforma psiquiátrica (art. 2.º — direitos da pessoa com transtorno mental; art. 3.º — responsabilidade do Estado na assistência)
  • Lei 10.257/2001 (Estatuto da Cidade) — Art. 2.º — diretrizes gerais da política urbana, incluindo saneamento ambiental

Código Civil (Lei 10.406/2002)

Legislação municipal

  • Lei Municipal 1.642/95 (Código de Posturas)
    • Art. 4.º — Proibição de acúmulo de materiais insalubres em imóveis urbanos
    • Art. 5.º — Obrigação do proprietário/possuidor de manter o imóvel limpo
    • Art. 7.º — Execução compulsória da limpeza às expensas do infrator; multa diária

Princípios aplicáveis

  • Princípio do poluidor-pagador (art. 4.º, VII, Lei 6.938/81)
  • Princípio da prevenção (dever de evitar o dano ambiental)
  • Princípio da precaução (risco de contaminação hídrica e de zoonoses)
  • Princípio da cooperação (art. 225, caput, CF — dever do Poder Público e da coletividade)
  • Princípio da proporcionalidade (adequação das astreintes como meio coercitivo)
  • Princípio da dignidade da pessoa humana (art. 1.º, III, CF — aplicável ao morador e à comunidade)
Como essas normas se aplicam concretamente aos fatos narrados?

Passo 7

Aplicação da Lei ao Caso

Neste passo, nós aplicamos as normas identificadas aos fatos do caso, verificando cada pressuposto necessário ao resultado jurídico pretendido. A estrutura segue a lógica SE/ENTÃO: se cada pressuposto estiver preenchido, então o resultado normativo se impõe.

1. DANO AMBIENTAL CF art. 225 + Lei 6.938/81, art. 3.º, III
Norma
O art. 3.º, III, da Lei 6.938/81 define degradação ambiental como a alteração adversa das características do meio ambiente. O art. 225 da CF garante a todos o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, impondo ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo.
Conceito
Dano ambiental, neste contexto, não se limita à degradação de ecossistemas naturais. Abrange a deterioração do meio ambiente urbano, incluindo condições de salubridade, presença de vetores de doenças e comprometimento da qualidade de vida da comunidade do entorno. A jurisprudência reconhece o conceito amplo de meio ambiente, que inclui o meio ambiente artificial (urbano).
Critérios de aferição
Existência de alteração adversa documentada: laudos da Vigilância Sanitária atestando presença de vetores de zoonoses, risco de incêndio, contaminação do solo por fezes em decomposição; denúncias reiteradas de vizinhos desde 2018; proximidade de escola (risco a crianças) e de corpo hídrico (risco de contaminação).
Jurisprudência verificada (do acórdão)

O STJ, no AREsp 1.728.895/DF (Min. Herman Benjamin, 2.ª Turma, j. 16/03/2021), reafirmou a natureza objetiva da responsabilidade por dano ambiental e a solidariedade entre poluidor e Estado omisso.

No REsp 604.725/PR (Min. Castro Meira, 2.ª Turma, DJ 22/08/2005), consolidou-se que a responsabilidade do Estado por omissão ambiental é solidária, de execução subsidiária.

Ônus probatório
Em matéria ambiental, o ônus da prova pode ser invertido em favor do meio ambiente (princípio in dubio pro natura). No caso, contudo, os laudos técnicos da Vigilância Sanitária já constituem prova robusta da degradação.
Interpretações concorrentes

(a) Posição majoritária: o acúmulo de resíduos com proliferação de vetores configura dano ambiental, independentemente de haver poluição química do solo ou da água.

(b) Posição minoritária: seria necessário demonstrar efetivo dano ao meio ambiente natural (contaminação hídrica, por exemplo) para além do mero incômodo de vizinhança.

Neste caso
Preenchido. Os laudos da Vigilância Sanitária documentam alteração adversa do meio ambiente urbano: proliferação de ratos, baratas e moscas, fezes de animais em decomposição, risco de incêndio, odor fétido. A proximidade de escola e corpo hídrico agrava o potencial lesivo. O dano é atual, contínuo e crescente.

2. OMISSÃO DO PODER PÚBLICO CF art. 225, §1.º + art. 23, VI e VII
Norma
O art. 225, §1.º, da CF impõe ao Poder Público o dever de defender e preservar o meio ambiente. O art. 23, VI e VII, atribui competência comum à União, Estados e Municípios para proteger o meio ambiente e promover programas de melhoria do saneamento. O poder de polícia ambiental municipal inclui fiscalização, autuação e execução de medidas corretivas.
Conceito
A omissão administrativa relevante não é a inação absoluta, mas a insuficiência da ação estatal diante de um dever jurídico específico. O Município agiu (cinco limpezas), mas de forma insuficiente e descontinuada — a degradação retornou após cada intervenção. A omissão, aqui, consiste na falta de uma política efetiva e contínua de enfrentamento do problema.
Jurisprudência verificada (do acórdão)

No AgRg no REsp 1.497.096/RJ (Min. Mauro Campbell Marques, 2.ª Turma, DJe 18/12/2015), o STJ reafirmou que a responsabilidade do Estado por dano ambiental decorrente de omissão é solidária com o poluidor direto.

No AgInt no REsp 1.326.903/DF (Min. Og Fernandes, 2.ª Turma, DJe 30/04/2018), ficou assentado que o ente público pode ser condenado em obrigação de fazer ambiental quando demonstrada a omissão no exercício do dever-poder de fiscalização.

Ônus probatório
Cabe ao Município demonstrar que adotou todas as providências ao seu alcance. A mera alegação de ter realizado limpezas pontuais não afasta a omissão se o resultado objetivo não foi alcançado.
Interpretações concorrentes

(a) Posição majoritária: a execução subsidiária significa que o Estado responde quando o poluidor não pode ou não quer reparar; a omissão é causa concorrente do agravamento.

(b) Posição minoritária (voto vencido): o Município já agiu (cinco intervenções); a obrigação de resultado é do poluidor; ao ente público caberia apenas fiscalização e, se necessário, execução forçada da obrigação do particular.

Neste caso
Preenchido. Cinco intervenções em quatro anos, todas sem resultado duradouro. Inexistência de programa de acompanhamento continuado. Ausência de vaga no CAPS para tratamento do morador. O padrão de ação pontual seguida de retorno ao estado degradante configura a omissão relevante: o Município agiu, mas insuficientemente.

3. NEXO CAUSAL ENTRE OMISSÃO E AGRAVAMENTO DO DANO
Norma e conceito
Em responsabilidade ambiental por omissão, o nexo causal se estabelece entre a omissão do dever de agir e a perpetuação ou agravamento do dano. Não se exige que a omissão seja a causa única — basta que seja concausa.
Neste caso
Preenchido. A cada limpeza pontual seguida de abandono do acompanhamento, o imóvel retornava à condição degradante em três a seis meses. A omissão do Município em manter acompanhamento contínuo é causa direta da perpetuação do dano. Ademais, a não disponibilização de tratamento psicossocial adequado (vaga no CAPS) contribui para que o comportamento do morador permaneça inalterado.

4. INCAPACIDADE FÁTICA DO POLUIDOR CC art. 4.º + Lei 10.216/2001
Norma
O art. 4.º do Código Civil lista os relativamente incapazes. Seu Geraldo não se enquadra formalmente: não foi interdito, não foi declarado pródigo. Contudo, o laudo psiquiátrico atesta comprometimento da capacidade de organizar e descartar objetos. A Lei 10.216/2001 garante direitos à pessoa com transtorno mental, incluindo tratamento adequado.
Conceito: liberdade moral

Conforme Jean-Jacques Rousseau (Do Contrato Social, trad. Edson Bini, Edipro, 2020, p. 43), citado no acórdão, a liberdade moral é aquela que torna o homem verdadeiramente senhor de si mesmo — o domínio de si pela razão. Sem ela, o impulso do apetite configura escravidão.

A distinção entre incapacidade civil formal (arts. 3.º e 4.º do CC) e incapacidade fática é central neste caso. Seu Geraldo é civilmente capaz — ninguém o interditou, ele se alimenta, se locomove, conversa com vizinhos. Mas não possui liberdade moral para cessar o comportamento acumulador: o transtorno compromete especificamente a capacidade de descartar.

Ônus probatório
O laudo psiquiátrico particular foi juntado aos autos pela filha. Questiona-se: seria necessária perícia judicial para confirmar o diagnóstico? O Município poderia impugnar o laudo unilateral?
Interpretações concorrentes

(a) Posição do relator (majoritária): a incapacidade fática, mesmo sem interdição formal, justifica que o Município assuma a execução direta da obrigação de limpeza — se o poluidor não pode cessar a conduta por limitação psíquica, a subsidiariedade perde sentido prático.

(b) Posição do voto vencido: o poluidor responde objetivamente; se incapaz, cabe interdição e nomeação de curador, não transferência da obrigação ao Estado. A responsabilidade subsidiária somente se converte em direta quando o poluidor é insolvente ou inexistente, não quando é psiquicamente limitado.

Neste caso
Preenchido, segundo a posição majoritária. O laudo atesta comprometimento específico da capacidade de descartar objetos. Cinco intervenções em quatro anos demonstram empiricamente que a cessação voluntária é improvável. A ausência de interdição não afasta a incapacidade fática — ela afasta a incapacidade jurídica formal, que é coisa diversa. A pergunta que o caso coloca é: deve o ordenamento jurídico esperar que o dano ambiental se perpetue indefinidamente enquanto se busca a formalização da incapacidade?

5. PROPORCIONALIDADE DAS ASTREINTES CPC art. 537 + Lei 7.347/85 art. 3.º
Norma e conceito
As astreintes são meio coercitivo atípico destinado a compelir o cumprimento de obrigação de fazer ou não fazer. Devem ser suficientes para gerar pressão psicológica no devedor, sem constituir enriquecimento ilícito do credor.
Ao Município (R$ 500/dia, limite R$ 50 mil)
A adequação depende de saber se o valor é suficiente para gerar incentivo ao cumprimento pelo ente público. Considerando que o custo operacional de cada limpeza (caminhões, equipes, endemias) provavelmente supera o limite acumulado da multa, a eficácia coercitiva é questionável — o Município pode preferir pagar a multa a manter equipe permanente.
A Seu Geraldo (R$ 200/dia, limite R$ 20 mil)
Problema central: se o morador não possui liberdade moral para controlar o comportamento, a multa diária não exerce função coercitiva — pune sem corrigir. Ademais, um aposentado com renda presumivelmente limitada não terá como pagar, gerando crédito inexequível.
Neste caso
Parcialmente preenchido. As astreintes ao Município podem ser proporcionais como mecanismo de pressão institucional, embora o valor limite mereça revisão. Quanto a Seu Geraldo, a multa diária é potencialmente desproporcional e ineficaz: pune a manifestação de um transtorno mental sem contribuir para sua cessação. A questão é se existiria meio coercitivo mais adequado — e a resposta talvez passe pelo tratamento de saúde, não pela multa.

Preenchidos os pressupostos 1 a 4 (dano ambiental, omissão, nexo causal, incapacidade fática), a posição majoritária sustenta que a responsabilidade subsidiária do Município converte-se em direta: o ente público assume a obrigação de remoção periódica de resíduos e fiscalização contínua. O pressuposto 5 (proporcionalidade das astreintes) merece modulação, especialmente em relação ao morador.

Nota: Precedentes adicionais podem ser encontrados no Material Complementar.

E se os fatos fossem diferentes — a solução jurídica se alteraria?

Passo 8

Variações Fáticas

Variação 1 — Morador plenamente capaz, acúmulo por desídia

Imagine que Seu Geraldo não possuísse qualquer transtorno mental. O acúmulo resultasse de simples negligência ou recusa deliberada em manter o imóvel limpo.

Solução provável: a responsabilidade do Município permaneceria subsidiária, nos termos da regra geral do STJ. O poluidor plenamente capaz responde em primeiro lugar; o Município intervém apenas quando o particular for insolvente ou inexistente. As astreintes contra o morador seriam plenamente eficazes. O argumento da liberdade moral não se aplicaria.

Variação 2 — Município com programa efetivo de coleta e fiscalização

Suponha que o Município mantivesse programa contínuo de coleta de resíduos em áreas de risco sanitário, com visitas semanais ao imóvel e encaminhamento do morador ao CAPS, tudo documentado.

Solução provável: descaracterizada a omissão. Se o Município agiu de forma adequada e contínua, empregando os meios disponíveis, a persistência do dano decorreria exclusivamente da conduta do poluidor direto. A condenação em obrigação de fazer perderia fundamento — o Município já faz. Eventual manutenção da demanda contra o morador dependeria de avaliar a eficácia dos meios coercitivos diante do transtorno.

Variação 3 — Morador interdito, com curador nomeado

E se Seu Geraldo já houvesse sido interdito judicialmente, com Helena nomeada curadora?

Solução provável: a curadora assumiria a obrigação de zelar pelo imóvel (art. 1.781, CC). A incapacidade fática estaria formalizada em incapacidade jurídica. O réu na ACP deveria ser representado pela curadora. A obrigação de limpeza recairia, em primeiro lugar, sobre o curador; o Município responderia subsidiariamente. O voto vencido ganharia força: se há curador, há responsável formal capaz de agir.

Variação 4 — Imóvel em área de preservação permanente (APP)

E se a casa de Seu Geraldo estivesse situada dentro da faixa de APP do córrego, a menos de 30 metros da margem (art. 4.º, I, Lei 12.651/2012)?

Solução provável: o dano ambiental ganharia dimensão qualificada — não apenas insalubridade urbana, mas degradação de área especialmente protegida. A urgência da intervenção seria reforçada. Haveria potencial para pedido de demolição ou remoção do morador (art. 7.º, Lei 12.651/2012), o que agravaria o conflito entre proteção ambiental e dignidade humana.

Variação 5 — Denúncia de maus-tratos aos animais (art. 32, Lei 9.605/98)

E se, além da ACP ambiental, houvesse notícia-crime por maus-tratos aos animais abrigados no imóvel?

Solução provável: surgiria a dimensão penal: o art. 32 da Lei 9.605/98 tipifica como crime praticar ato de abuso, maus-tratos, ferir ou mutilar animais. A questão da imputabilidade penal de Seu Geraldo (art. 26, CP) se colocaria: o Transtorno de Acumulação afetaria a capacidade de entender o caráter ilícito do fato? Na esfera cível da ACP, reforçaria a urgência da apreensão dos animais, com possível atuação conjunta do órgão de controle animal.

Existe um cenário em que a norma não oferece resposta clara?

Passo 9

Incerteza Normativa — Versão Insolúvel

Cenário: o curador também se recusa

Imagine que Seu Geraldo foi interdito. Helena, nomeada curadora, reside na capital e não possui condições financeiras nem disponibilidade de tempo para supervisionar a limpeza mensal do imóvel. Ela comunica ao juízo que não consegue impedir o pai de acumular novos materiais — cada visita quinzenal resulta em confronto, e o pai a acusa de “roubar as coisas da Terezinha”. Helena pede para ser destituída da curatela. Nenhum outro familiar se apresenta.

Por que é insolúvel?

  • O poluidor não pode cessar: o transtorno mental impede a cessação voluntária do comportamento.
  • O curador não pode executar: sem recursos, sem proximidade geográfica, sem cooperação do curatelado.
  • O Município alega esgotamento orçamentário: cinco limpezas anuais (12 toneladas cada) excedem a dotação prevista para resíduos especiais. A reserva do possível é invocada.
  • As astreintes não funcionam: contra o morador, são inexequíveis (aposentado de baixa renda); contra o Município, são absorvidas como custo administrativo sem alterar o comportamento institucional.
  • Colisão de direitos fundamentais: o direito ao meio ambiente equilibrado (art. 225, CF) colide com a dignidade da pessoa com transtorno mental (art. 1.º, III, CF) e com o direito à moradia (art. 6.º, CF). Nenhum deles cede automaticamente ao outro.

O que o Direito pode oferecer?

Não há, neste cenário, solução que satisfaça plenamente todos os direitos em jogo. O ordenamento pode oferecer arranjos institucionais — equipes multidisciplinares (saúde mental, assistência social, vigilância sanitária), curatela compartilhada, internação compulsória como última medida (art. 6.º, III, Lei 10.216/2001) — mas cada alternativa implica restrições a algum direito fundamental. A decisão judicial, aqui, é uma escolha trágica: qualquer solução gera perdas.

Este cenário expõe o que o Direito não diz: quando todos os responsáveis falham, quem arca com o custo da degradação? A resposta é, inevitavelmente, a comunidade — que suporta o dano enquanto as instituições buscam uma solução possível.

Quais perguntas permitem ir além da superfície do problema?

Passo 10

Perguntas de Aprofundamento

  1. Limites do poder de polícia: até onde vai o dever do Município de executar materialmente a obrigação ambiental? Existe um ponto em que a condenação judicial ao ente público configura substituição da administração pelo Judiciário?
  2. Eficácia das astreintes contra pessoa sem capacidade fática: se a função das astreintes é coercitiva (pressão psicológica para cumprimento), elas têm sentido quando dirigidas a pessoa cujo comportamento decorre de transtorno mental? Existe meio coercitivo alternativo?
  3. Papel da rede de saúde mental: a condenação do Município em limpeza mensal resolve o sintoma, mas não a causa. Deveria o juízo condenar também à disponibilização de vaga no CAPS e acompanhamento psicossocial? Isso ultrapassaria o pedido do MP?
  4. Incapacidade fática como categoria jurídica: o Direito brasileiro não possui conceito positivado de “incapacidade fática” distinto da incapacidade civil formal. O acórdão constrói essa categoria com base em Rousseau. Seria necessária uma previsão legal expressa, ou a construção jurisprudencial é suficiente?
  5. Custos da inércia: quanto custa ao sistema de saúde pública tratar as doenças causadas pela insalubridade (leptospirose, dengue, doenças respiratórias)? Esse custo supera o investimento em limpeza periódica? A análise econômica do Direito pode oferecer critérios para essa decisão?
  6. Dignidade de quem? O respeito à autonomia de Seu Geraldo implica permitir que ele viva em condições insalubres? Ou a dignidade exige intervenção, mesmo contra a vontade do morador? Onde termina a liberdade e começa o paternalismo justificável?
  7. Responsabilidade intergeracional: Helena não criou o problema, mas herdará as consequências (imóvel degradado, dívida de astreintes, estigma). O Direito deve protegê-la de alguma forma, ou a solidariedade familiar é um dever implícito?
Seria possível resolver este conflito sem uma decisão judicial?

Passo 11

Métodos Autocompositivos

Mediação multipartes

Este conflito envolve múltiplos interesses legítimos e interdependentes — o que o torna um candidato natural à mediação multipartes. As partes envolvidas seriam: o Ministério Público (como fiscal dos interesses difusos), o Município (Secretarias de Meio Ambiente, Saúde e Assistência Social), Seu Geraldo (representado pela filha Helena, se necessário), e representantes dos vizinhos diretamente afetados.

A mediação permitiria construir uma solução que a sentença judicial dificilmente alcançaria: um plano integrado que combine limpeza periódica, acompanhamento psicossocial, tratamento psiquiátrico, apoio à família e monitoramento comunitário. A sentença condena; a mediação pode comprometer.

BATNA e MATNA

BATNA do Município (Best Alternative to a Negotiated Agreement — melhor alternativa ao acordo): litigar até o final, invocando a subsidiariedade e a reserva do possível. Risco: condenação confirmada em segunda instância com astreintes e custos reputacionais.

BATNA de Seu Geraldo/Helena: resistir à condenação, eventualmente buscar interdição para transferir responsabilidade ao curador. Risco: acúmulo de multas inexequíveis e agravamento da condição do imóvel.

MATNA do MP (Most Attractive to a Negotiated Agreement): obter compromisso voluntário do Município de criar programa permanente de manejo de situações de acumulação compulsiva, indo além deste caso individual.

BATNA do MP: sentença de procedência com astreintes. Risco: execução difícil, sem garantia de resultado prático.

Termo de Ajustamento de Conduta (TAC)

O art. 5.º, §6.º, da Lei 7.347/85 autoriza o MP a firmar TAC. Neste caso, o TAC poderia prever: (i) cronograma de limpezas bimestrais pelo Município; (ii) inscrição de Seu Geraldo no CAPS com acompanhamento regular; (iii) inspeção veterinária e castração dos animais; (iv) relatórios trimestrais à Promotoria; (v) compromisso de Helena em apoiar o tratamento do pai. O TAC possui vantagens sobre a sentença: é construído cooperativamente, permite flexibilidade, e pode ser revisado sem novo processo.

Justiça restaurativa

Embora incomum em conflitos ambientais, a perspectiva restaurativa pode contribuir aqui: círculos de diálogo entre Seu Geraldo, vizinhos e representantes do Município poderiam reconstruir os laços comunitários rompidos pelo conflito. O próprio Seu Geraldo — que antes oferecia café aos vizinhos — pode ser visto não apenas como poluidor, mas como membro da comunidade que precisa de apoio. A justiça restaurativa pergunta: o que é necessário para restaurar o que foi rompido?

Reflexão

Nenhum método autocompositivo elimina o problema de fundo: o Transtorno de Acumulação não cessa por acordo. Mas pode criar o ambiente institucional para que o tratamento ocorra — algo que a sentença, sozinha, não garante. A questão é: o que é mais eficaz para proteger o meio ambiente e a saúde pública — uma condenação ou um compromisso?

O que o acórdão original pode revelar além do que o caso criado explorou?

Passo 12

Leia a Decisão

Leitura avançada do acórdão

O acórdão original é uma decisão da 3.ª Câmara Cível do TJMG, relatada pelo Des. Jair Varão, com julgamento em 07/02/2025. Ao lê-lo, propomos ir além do dispositivo (resultado) e investigar a arquitetura argumentativa da decisão.

1. Ratio decidendi vs. obiter dictum

A ratio decidendi — a razão de decidir, vinculante para casos futuros — é a tese de que a incapacidade fática do poluidor excepciona a regra da subsidiariedade. Identifique no acórdão: em que parágrafo o relator enuncia essa tese? Ela é formulada como regra geral ou como exceção circunstancial?

Observe também os trechos que constituem obiter dictum — argumentos secundários que reforçam a conclusão mas não a fundamentam. A referência a Rousseau, por exemplo: é ratio ou obiter? A resposta depende de saber se a decisão se sustentaria sem ela.

2. O voto vencido

O 2.º vogal, Des. Pedro Aleixo, ficou vencido. O voto vencido sustenta que: (a) o poluidor responde objetivamente (art. 3.º, IV, Lei 6.938/81); (b) a responsabilidade é objetiva e independe de capacidade; (c) se o morador é incapaz, o caminho é a interdição, não a transferência da obrigação ao Estado; (d) ao Município caberia apenas fiscalização.

Ao ler o voto vencido, pergunte-se: ele é internamente coerente? Resolve o problema prático? Se o morador não pode cessar a conduta e ninguém requer a interdição, o voto vencido oferece solução ou apenas identifica o responsável formal sem garantir resultado?

3. Fundamentação implícita

Todo acórdão contém premissas não explicitadas. Neste caso, a premissa implícita central é: a efetividade da tutela jurisdicional prevalece sobre a rigidez da classificação dogmática da responsabilidade. O relator não diz isso expressamente, mas toda a argumentação caminha nessa direção. Identifique: que outras premissas implícitas sustentam a decisão?

4. Ponte com o modelo indutivo

Compare este caso criado com o Caso Explicado. O modelo indutivo parte da decisão real: norma aplicada, fundamentação do tribunal, discussão crítica. O modelo dedutivo cria um caso novo a partir da estrutura lógica do acórdão. Onde convergem? Onde divergem?

Observe especialmente: os fatos que nós criamos neste caso são mais ricos do que os narrados no acórdão? Isso é intencional — no modelo dedutivo, os fatos servem ao exercício analítico. No acórdão real, os fatos estão “desidratados” pela filtragem processual. Essa diferença importa para a formação jurídica?

5. O que o acórdão não diz

  • Não enfrenta expressamente o problema da eficácia das astreintes contra pessoa com transtorno mental.
  • Não menciona a Lei 10.216/2001 (reforma psiquiátrica).
  • Não discute o papel da assistência social nem a ausência de vaga no CAPS.
  • Não aborda a possibilidade de TAC ou mediação.

Essas ausências são relevantes: indicam os limites do que o tribunal foi chamado a decidir — e, portanto, os espaços abertos para desenvolvimento futuro da jurisprudência.

Acesse o acórdão original (PDF) →

Como organizar todos esses elementos para estudo e pesquisa futura?

Passo 13

Ficha Semântica

Ficha Semântica do Caso

Área do Direito
Direito Ambiental; Direito Administrativo; Direito Civil
Subárea
Responsabilidade ambiental do Estado por omissão; Poder de polícia municipal; Direito de vizinhança; Saúde mental e meio ambiente
Tipo de ação
Ação Civil Pública (Lei 7.347/85)
Fase processual
Apelação cível
Tribunal de origem
Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais (TJMG), 3.ª Câmara Cível
Relator
Des. Jair Varão
Data de julgamento
07/02/2025
Resultado
Negado provimento à apelação do Município — sentença de procedência mantida integralmente
Voto vencido
Des. Pedro Aleixo (2.º vogal) — pelo provimento parcial, limitando a obrigação municipal à fiscalização
Questão principal
A incapacidade fática do poluidor direto justifica a conversão da responsabilidade subsidiária do Estado em responsabilidade de execução direta?
Institutos jurídicos
Responsabilidade ambiental
Execução subsidiária
Poder de polícia
Astreintes
Obrigação de fazer
Liberdade moral
Função social da propriedade
Direito de vizinhança
ACP
Legislação principal
CF art. 225; Lei 6.938/81 arts. 3.º, IV, 14, §1.º; Lei 12.305/2010 arts. 10, 30; Lei 7.347/85; CC arts. 1.228, §1.º, 1.277; Lei Municipal 1.642/95
Jurisprudência citada no acórdão
AREsp 1.728.895/DF (STJ); AgRg no REsp 1.497.096/RJ (STJ); AgInt no REsp 1.326.903/DF (STJ); REsp 604.725/PR (STJ); AI-Cv 1.0000.22.247558-4/002 (TJMG)
Doutrina citada no acórdão
Jean-Jacques Rousseau, Do Contrato Social, trad. Edson Bini, Edipro, 2020, p. 43
Complexidade






Palavras-chave
acumulação compulsiva
resíduos sólidos
transtorno mental
meio ambiente urbano
responsabilidade solidária
execução subsidiária
poder de polícia
astreintes
omissão administrativa
saúde pública
zoonoses
liberdade moral
Níveis disponíveis
Primeiro Olhar / Estudo Dirigido / Análise Completa (este material)
Modelo
Dedutivo (caso criado a partir da estrutura lógica do acórdão)
Autor
Antonio Joaquim Schellenberger Fernandes

Quer ver como o tribunal decidiu?

No Caso Explicado, analisamos o acórdão real: a norma aplicada, a fundamentação do tribunal e uma discussão crítica sobre a solução adotada.

Caso Explicado →

Acúmulo de Resíduos Sólidos e Responsabilidade Ambiental do Município

Processo 1.0000.24.407105-6/001 · Rel. Des. Jair Varão · Julgamento: 07.02.2025

Passo 1

Identificação do Caso

Processo 1.0000.24.407105-6/001
Tribunal TJMG — 3ª Câmara Cível
Comarca Além Paraíba
Tipo de ação Ação Civil Pública
Apelante Município de Além Paraíba
Apelados Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) e o morador
Relator Des. Jair Varão
Julgamento 07/02/2025
Resultado Negaram provimento ao recurso, vencido o 2º vogal (Des. Pedro Aleixo)

Este caso trata de uma ação civil pública ajuizada pelo MPMG contra o Município de Além Paraíba e um morador que, em razão de transtorno de acumulação compulsiva, mantinha em sua residência grande volume de resíduos sólidos, materiais recicláveis, lixo, dejetos e animais — gerando riscos sanitários e ambientais para a vizinhança. A questão central é: pode o Município ser obrigado a realizar limpezas periódicas no imóvel de um particular, quando este não possui condições de saúde mental para cumprir, por si, a obrigação de fazer?

O que o tribunal efetivamente decidiu neste caso?

Passo 2

Resumo Fiel da Decisão

Os fatos

Um morador de município da Zona da Mata Mineira, com histórico de internações psiquiátricas e diagnóstico de transtorno mental, mantinha em sua residência grande acúmulo de objetos, materiais recicláveis, lixo e dejetos. No local também havia criação de cães, patos e galinhas. Familiares e vizinhos relataram mau cheiro, proliferação de insetos e roedores. Em 2015, a Vigilância Sanitária considerou o imóvel “totalmente insalubre”.

O CREAS recomendou internação involuntária e tratamento no CAPS, mas o morador rejeitou qualquer acompanhamento. O Município realizou diversas limpezas — retirando caminhões de lixo —, porém o morador voltava a acumular materiais. Um familiar, ao prestar declarações ao MPMG, relatou que o morador “tem esquizofrenia e não aceita fazer tratamento” e que “continua catando lixo pela rua e guardando dentro da residência”.

A ação civil pública foi ajuizada em 21/09/2015. A sentença, proferida em maio de 2023, julgou procedentes os pedidos.

A sentença recorrida

O juízo de primeiro grau determinou:

  • a) Condenou o Município à remoção mensal de resíduos, inspeção de animais e busca e apreensão em caso de maus-tratos (astreintes de R$ 500,00/dia, limitadas a R$ 50.000,00);
  • b) Condenou o Município à fiscalização sanitária periódica;
  • c) Condenou o morador a se abster de acumular resíduos (astreintes de R$ 200,00/dia, limitadas a R$ 20.000,00);
  • d) Autorizou o uso de força policial em caso de resistência.

As teses do recurso (Município)

O Município de Além Paraíba interpôs apelação sustentando quatro teses:

  1. A responsabilidade ambiental é do proprietário/poluidor, não do Poder Público;
  2. O morador é civilmente capaz (não foi interdito);
  3. As penalidades impostas são desproporcionais;
  4. Subsidiariamente: o dever municipal deveria ser de caráter subsidiário, com periodicidade de 90 dias.

O acórdão

A 3ª Câmara Cível do TJMG, por maioria, negou provimento à apelação, mantendo integralmente a sentença.

Voto do Relator (Des. Jair Varão)

O Relator estruturou seu voto em quatro pilares:

  1. Jurisprudência do STJ: a responsabilidade estatal por omissão em controle e fiscalização ambiental é solidária, de execução subsidiária;
  2. Exceção no caso concreto: o morador não possui “liberdade moral” (conceito de Rousseau) para cumprir a obrigação — o transtorno de acumulação compulsiva retira a capacidade de autodeterminação;
  3. Código de Posturas de Além Paraíba (Lei Municipal 1.642/95, arts. 4º, 5º e 7º): dever do Município de zelar pela higiene pública;
  4. Gravidade documentada: fotografias nos autos comprovaram a insalubridade.

Voto vencido (Des. Pedro Aleixo)

O Des. Pedro Aleixo divergiu, propondo parcial provimento ao recurso. Seus fundamentos:

  • Poluidor é quem causa a degradação (art. 3º, IV, da Lei 6.938/81);
  • A responsabilidade civil ambiental é objetiva (risco integral);
  • O gerador de resíduos deve arcar com a destinação (Lei 12.305/2010);
  • A responsabilidade pública seria apenas emergencial, não permanente;
  • Se o morador não tem capacidade, a via adequada seria a interdição;
  • Propôs manter apenas a fiscalização municipal.

Resultado da votação

Des. Jair Varão (Relator): nega provimento. Des. Alberto Diniz Junior: de acordo. Des. Pedro Aleixo: diverge (parcial provimento). Des. Maurício Soares: de acordo. Desa. Luzia Peixôto: de acordo. Resultado: negaram provimento, vencido o segundo vogal.

Qual é a norma central que sustenta essa decisão?

Passo 3

Norma Principal Aplicada

A norma que estruturou a decisão é o art. 225 da Constituição Federal, que impõe ao Poder Público e à coletividade o dever de defender e preservar o meio ambiente ecologicamente equilibrado para as presentes e futuras gerações.

A esse mandamento constitucional somam-se:

  • Lei 6.938/81 (Política Nacional do Meio Ambiente), arts. 3º, IV, 4º, VII, e 14 — definição de poluidor e responsabilidade solidária;
  • Lei 12.305/2010 (Política Nacional de Resíduos Sólidos), arts. 3º e 10 — responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida dos resíduos;
  • Lei Municipal 1.642/95 (Código de Posturas de Além Paraíba), arts. 4º, 5º e 7º — dever de zelar pela higiene pública e poder de polícia sanitária;
  • Código Civil, arts. 4º e 1.277 — capacidade civil e direito de vizinhança.

O arranjo normativo estabelece que a proteção ambiental é dever concorrente: tanto o particular (poluidor direto) quanto o Poder Público (fiscalizador e garantidor) respondem pela degradação. A questão-chave foi definir quem executa a obrigação quando o particular não pode fazê-lo.

Como o tribunal aplicou essa norma para chegar à solução?

Passo 4

Descrição da Solução Jurídica

O tribunal manteve todas as condenações impostas pela sentença, adotando o seguinte raciocínio:

1. Responsabilidade solidária de execução subsidiária — com exceção

O Relator partiu da jurisprudência consolidada do STJ: em matéria ambiental, a responsabilidade do Estado por omissão na fiscalização é solidária, mas de execução subsidiária. Isso significa que o Poder Público responde se o poluidor direto não cumprir a obrigação.

No entanto, o Relator identificou uma exceção decisiva: o morador, por sofrer de transtorno de acumulação compulsiva, não tem condições de cumprir a obrigação — falta-lhe o que o Des. Jair Varão denominou, invocando Rousseau, de “liberdade moral“. Sem essa liberdade, o morador não pode ser tratado como devedor primário efetivo. A execução deixa de ser subsidiária e torna-se, na prática, primária para o Município.

2. Dever municipal autônomo

Independentemente da subsidiariedade, o Código de Posturas de Além Paraíba (Lei 1.642/95) impõe ao Município o dever de zelar pela higiene pública. A omissão do Município, portanto, não era apenas reflexa da conduta do morador — era violação de dever próprio de poder de polícia sanitária.

3. Proporcionalidade das astreintes

O tribunal não acolheu a tese de desproporcionalidade. As multas (R$ 500/dia para o Município, R$ 200/dia para o morador) foram mantidas com limites (R$ 50.000 e R$ 20.000, respectivamente), entendendo que os valores eram compatíveis com a gravidade da situação ambiental e sanitária documentada nos autos.

Fundamento determinante

O elemento que diferenciou este caso da regra geral foi a constatação de que o morador, embora formalmente capaz (não interdito), não possui condições psíquicas reais para cumprir a obrigação de não acumular. Essa constatação fática — lastreada em laudo, relatórios do CREAS e declarações familiares — inverteu a lógica da subsidiariedade e transformou o dever municipal de residual em principal.

Essa solução resiste a uma análise crítica?

Passo 5

Discussão Crítica

O acerto da decisão: olhar para a realidade

O grande mérito do acórdão é recusar a ficção jurídica que equipararia o morador a um poluidor comum. A decisão reconhece que a capacidade civil formal (ausência de interdição) não se confunde com a capacidade real de autodeterminação. Nesse ponto, o voto do Relator dialoga com uma preocupação central do Direito contemporâneo: a efetividade das decisões judiciais. De nada adiantaria condenar exclusivamente uma pessoa que, por condição de saúde mental, não pode cumprir a obrigação.

A tensão com o voto vencido

O Des. Pedro Aleixo trouxe argumentos juridicamente consistentes. A responsabilidade ambiental objetiva é, de fato, do poluidor (art. 3º, IV, Lei 6.938/81). A Lei 12.305/2010 atribui ao gerador a responsabilidade pelos resíduos. E a via da interdição (Código Civil) seria o caminho processual adequado para declarar a incapacidade e nomear curador.

A divergência não é frívola: transformar o Município em executor permanente de limpeza domiciliar levanta questões sobre os limites da obrigação de fazer imposta ao Poder Público e sobre a função social da propriedade.

O que ficou em aberto

O acórdão não enfrentou diretamente a possibilidade de interdição judicial do morador — medida que poderia resolver o impasse entre capacidade formal e incapacidade real. Se o morador fosse interditado e um curador nomeado, a obrigação de manter o imóvel limpo recairia sobre o curador, e a subsidiariedade municipal voltaria à regra geral.

Tampouco se examinou a responsabilidade dos familiares — o irmão do morador declarou ao MPMG conhecer a situação. Há um vazio no acórdão sobre o dever de solidariedade familiar (art. 229, CF) e a possibilidade de inclusão dos parentes no polo passivo.

Outra questão não aprofundada é a duração da obrigação: a condenação impõe limpeza mensal indefinidamente, sem cláusula de revisão. Situações de saúde mental podem evoluir — positiva ou negativamente —, e uma obrigação permanente sem mecanismo de reavaliação pode gerar dificuldades futuras de execução.

Princípios que poderiam alterar o desfecho

Se o tribunal adotasse estritamente o princípio do poluidor-pagador (como fez o voto vencido), o resultado seria diferente: a obrigação primária recairia sobre o morador, com o Município atuando apenas em caráter emergencial. Contudo, o princípio da dignidade da pessoa humana (art. 1º, III, CF) e a proteção à saúde mental (arts. 196 e 227, CF) sustentam a opção do tribunal de não tratar como devedor primário quem não pode, por doença, cumprir a prestação.

Para exercitar o raciocínio sobre hipóteses alternativas, consulte as Variações no Caso Criado — especialmente no nível Análise Completa.

Outros tribunais decidiram de forma diferente em situações análogas?

Passo 6

Outras Soluções na Jurisprudência

Precedentes citados no acórdão

O próprio acórdão mobilizou precedentes relevantes, todos do STJ, para sustentar a tese da responsabilidade solidária de execução subsidiária:

  • AREsp 1.728.895/DF (Min. Herman Benjamin, 2ª Turma/STJ, j. 16/03/2021, DJe 17/12/2021) — responsabilidade solidária de execução subsidiária por omissão ambiental do Estado;
  • AgRg no REsp 1.497.096/RJ (Min. Mauro Campbell Marques, 2ª Turma/STJ, DJe 18/12/2015) — responsabilidade objetiva e ilimitada por danos urbanístico-ambientais;
  • AgInt no REsp 1.326.903/DF (Min. Og Fernandes, 2ª Turma/STJ, DJe 30/04/2018) — responsabilidade solidária, mas de execução subsidiária;
  • REsp 604.725/PR (Min. Castro Meira, 2ª Turma/STJ, DJ 22/08/2005);
  • AgInt no REsp 1.205.174/PR (Min. Sérgio Kukina, 1ª Turma/STJ, DJe 01/10/2020).

No âmbito do TJMG, foi citado:

  • AI-Cv 1.0000.22.247558-4/002 (Des. Edilson Olímpio Fernandes, 6ª CC/TJMG, j. 07/03/2023) — dever do Município de proteção, prevenção, controle populacional e manejo de cães e gatos.

Esses precedentes convergem na tese de que o Estado responde solidariamente pela degradação ambiental quando é omisso em seu dever de fiscalização, embora a execução da obrigação deva recair primariamente sobre o poluidor direto.

Para jurisprudência complementar sobre o tema, consulte o Material Complementar.

O que a doutrina tem a dizer sobre esse tema?

Passo 7

Referências Doutrinárias

As referências doutrinárias abaixo são citações da citação — autores mencionados pelos julgadores no acórdão.

Jean-Jacques Rousseau — Do Contrato Social

Conforme Jean-Jacques Rousseau (Do Contrato Social: princípios do direito político, trad. Edson Bini, prefácio Laurent de Saes, São Paulo: Edipro, 2020, p. 43), citado no acórdão pelo Des. Jair Varão, a liberdade moral é a única que torna o homem verdadeiramente senhor de si mesmo.

O Relator invocou esse conceito para diferenciar a liberdade formal (capacidade civil) da liberdade real (capacidade de autodeterminação). A ideia é que obedecer a uma lei que se prescreve a si mesmo é liberdade — mas, quando a doença impede essa autoprescrição, o sujeito não é verdadeiramente livre para cumprir a obrigação. Essa fundamentação filosófica sustentou a conclusão de que o morador, embora não interdito, não poderia ser tratado como devedor primário efetivo da obrigação de fazer.

E se os fatos fossem ligeiramente diferentes — a solução mudaria?

Passo 8

Variações do Caso

Variação 1 — Morador interdito com curador nomeado

Alteração fática: Imagine que, antes do ajuizamento da ação civil pública, o irmão do morador tivesse obtido a interdição judicial, sendo nomeado curador.

Impacto jurídico: A obrigação de manter o imóvel limpo recairia sobre o curador, como representante legal. O Município voltaria à posição de responsável subsidiário — ou seja, só responderia se o curador também fosse omisso. O argumento da ausência de “liberdade moral” perderia força, pois haveria um terceiro legalmente obrigado a agir em nome do incapaz.

Fundamentação: Código Civil, arts. 1.767 a 1.778 (curatela); art. 1.775, caput (dever do curador). O voto vencido do Des. Pedro Aleixo expressamente apontou essa via como a solução adequada.

Variação 2 — Acúmulo sem condição de saúde mental

Alteração fática: Suponha que o morador não tivesse qualquer diagnóstico de transtorno mental — acumulasse resíduos por mera negligência ou por atividade econômica informal (coleta de recicláveis para venda).

Impacto jurídico: A exceção criada pelo Relator (ausência de liberdade moral) não se aplicaria. O morador seria tratado como poluidor direto com plena capacidade de cumprir a obrigação. O Município responderia apenas subsidiariamente — a limpeza seria responsabilidade primária do próprio morador.

Fundamentação: Art. 3º, IV, da Lei 6.938/81 (conceito de poluidor); art. 225, CF (dever compartilhado, mas com responsabilidade primária do agente).

Variação 3 — Risco sanitário iminente com epidemia

Alteração fática: Considere que a proliferação de roedores no imóvel tivesse causado um surto de leptospirose na vizinhança, com internações hospitalares e risco epidemiológico comprovado.

Impacto jurídico: O caráter emergencial reforçaria o dever de ação imediata do Município, independentemente da discussão sobre subsidiariedade. A tutela de urgência poderia autorizar medidas mais drásticas (interdição do imóvel, remoção compulsória de animais). A responsabilidade civil do Município por omissão seria ainda mais evidente, podendo gerar dever de indenizar os vizinhos afetados.

Fundamentação: Lei 9.605/98, art. 70 (infrações ambientais); Lei 8.080/90 (dever do SUS em vigilância epidemiológica); CF, art. 196 (direito à saúde).

Variação 4 — Imóvel alugado (proprietário distinto do morador)

Alteração fática: Imagine que o morador não fosse proprietário do imóvel, mas locatário. O proprietário, ciente da situação, não tomava providências.

Impacto jurídico: O proprietário seria corresponsável pela degradação, pois a função social da propriedade (art. 5º, XXIII, CF; art. 1.228, §1º, CC) impõe ao dono o dever de zelar pelo uso adequado do imóvel. A cadeia de responsabilidade se ampliaria: poluidor direto (morador), proprietário omisso e Município. O proprietário poderia ainda promover a retomada do imóvel por infração contratual (art. 9º, II, da Lei 8.245/91).

Fundamentação: CC, art. 1.228, §1º (função social); art. 1.277 (direito de vizinhança); Lei 6.938/81, art. 3º, IV (poluidor indireto).

Variação 5 — Município com programa de saúde mental ativo

Alteração fática: Suponha que o Município tivesse implementado, antes da ação, um programa de acompanhamento de saúde mental pelo CAPS, com visitas domiciliares regulares e adesão parcial do morador ao tratamento.

Impacto jurídico: A demonstração de que o Município não foi omisso — que cumpriu seu dever de proteção à saúde mental e de fiscalização sanitária — poderia afastar ou reduzir sua responsabilidade. A periodicidade da limpeza poderia ser ampliada (como pleiteado subsidiariamente na apelação), e as astreintes poderiam ser reduzidas ou eliminadas.

Fundamentação: Lei 10.216/2001 (Reforma Psiquiátrica — direitos das pessoas com transtorno mental); CF, art. 196 (direito à saúde); princípio da proporcionalidade na fixação de obrigações judiciais.

Como organizar todos esses elementos para estudo e pesquisa futura?

Passo 9

Ficha Semântica

Ficha Semântica do Caso

Caso
Acúmulo de Resíduos Sólidos e Responsabilidade Ambiental do Município
Processo
1.0000.24.407105-6/001
Tribunal
TJMG — 3ª Câmara Cível
Relator
Des. Jair Varão
Julgamento
07/02/2025
Tipo de ação
Ação Civil Pública
Área
Direito Ambiental / Direito Administrativo / Direito Civil
Tema central
Responsabilidade ambiental do Município por omissão em fiscalização sanitária; limites da execução subsidiária quando o poluidor direto não pode cumprir a obrigação por transtorno mental
Norma principal
CF, art. 225; Lei 6.938/81, art. 3º, IV; Lei 12.305/2010; Lei Municipal 1.642/95
Resultado
Negaram provimento — mantida condenação do Município à remoção mensal de resíduos e fiscalização sanitária
Ratio decidendi
A responsabilidade solidária de execução subsidiária do Estado converte-se em execução primária quando o poluidor direto não possui liberdade moral (capacidade real de autodeterminação) para cumprir a obrigação
Voto vencido
Des. Pedro Aleixo — responsabilidade ambiental objetiva do poluidor; via adequada é a interdição
Complexidade



— Moderada
Palavras-chave

meio ambiente
resíduos sólidos
responsabilidade solidária
execução subsidiária
poder de polícia
saúde mental
acumulação compulsiva
ação civil pública
obrigação de fazer
astreintes
liberdade moral
direito de vizinhança
Institutos jurídicos
Responsabilidade ambiental, responsabilidade solidária, execução subsidiária, poder de polícia, obrigação de fazer, astreintes, função social da propriedade, direito de vizinhança
Legislação
CF, art. 225; Lei 6.938/81; Lei 12.305/2010; Lei 9.605/98; CC, arts. 4º, 1.277; Lei 10.257/2001; Lei Municipal 1.642/95; Lei 7.347/85
Doutrina
Jean-Jacques Rousseau, Do Contrato Social (Edipro, 2020) — citado no acórdão

Exercite o raciocínio com o Caso Criado.

O modelo dedutivo cria um caso novo a partir da estrutura lógica do acórdão. Escolha seu nível:

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Acúmulo de Resíduos e Responsabilidade Ambiental do Município

Este glossário foi criado para este caso. Os termos são definidos em função dos fatos e das normas aqui discutidos. Institutos e normas abstratas se concretizam a partir de fatos — nenhuma definição deve ser tida como absoluta. Em outro caso, com outros fatos, o mesmo termo pode assumir contornos diferentes.

A

Ação civil pública

Instrumento processual coletivo utilizado para proteger direitos difusos, coletivos e individuais homogêneos. Neste caso, o Ministério Público de Minas Gerais ajuizou ação civil pública para compelir o Município a remover periodicamente os resíduos acumulados no imóvel do morador e a fiscalizar as condições sanitárias do local, diante do risco ambiental e de saúde pública causado pelo acúmulo compulsivo de materiais e pela criação inadequada de animais.

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Acórdão

Decisão colegiada proferida por tribunal. Neste caso, o acórdão foi proferido pela 3ª Câmara Cível do TJMG, que, por maioria, negou provimento à apelação do Município de Além Paraíba, mantendo a obrigação de remoção mensal de resíduos e fiscalização do imóvel. O 2º vogal ficou vencido, discordando da imposição direta ao ente municipal.

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Apelação

Recurso cabível contra sentença, pelo qual a parte derrotada leva a questão ao tribunal de segundo grau. Aqui, o Município de Além Paraíba interpôs apelação contra a sentença que o condenou a realizar limpezas mensais no imóvel do morador, alegando que a responsabilidade pela remoção de resíduos é do proprietário-poluidor, não do ente público.

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Astreintes

Multa periódica fixada pelo juiz para forçar o cumprimento de uma obrigação de fazer ou não fazer. Neste caso, astreintes foram fixadas para garantir que o Município cumpra a obrigação de remover os resíduos mensalmente e fiscalizar o imóvel, sob pena de incidência da multa a cada descumprimento.

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Autor

Quem propõe a ação judicial, formulando pedido contra o réu. Neste caso, o Ministério Público de Minas Gerais é o autor da ação civil pública, atuando na defesa do meio ambiente e da saúde pública da vizinhança afetada pelo acúmulo de resíduos e pela criação inadequada de animais no imóvel do morador.

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C

Causa de pedir

Os fatos e os fundamentos jurídicos que justificam o pedido. Neste caso, a causa de pedir fática é o acúmulo compulsivo de resíduos, lixo e dejetos no imóvel do morador, somado à criação de animais em condições insalubres, gerando risco ambiental e sanitário à vizinhança. A causa de pedir jurídica é a responsabilidade do Município por omissão no exercício do poder de polícia ambiental e sanitária, combinada com a impossibilidade fática de o morador, portador de transtorno mental, cumprir ele próprio a obrigação de limpeza.

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D

Direito de vizinhança

Conjunto de regras que disciplinam o uso da propriedade para evitar que um imóvel cause prejuízo ao vizinho. Neste caso, os vizinhos do morador sofrem com mau cheiro, proliferação de insetos e roedores decorrentes do acúmulo de resíduos e da criação de animais em condições precárias, configurando uso nocivo da propriedade que viola os direitos de vizinhança.

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E

Execução subsidiária

Mecanismo pelo qual o Estado só é chamado a cumprir determinada obrigação quando o responsável direto não a cumpre. Neste caso, o Município alegou que sua responsabilidade seria apenas subsidiária — ou seja, que ele só deveria agir se o morador-poluidor não cumprisse a obrigação. O TJMG afastou esse argumento, entendendo que o transtorno mental do morador o torna faticamente incapaz de cumprir a obrigação, o que justifica a imposição direta ao Município.

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F

Função social da propriedade

Princípio constitucional segundo o qual a propriedade não serve apenas ao interesse do dono, mas deve atender a exigências sociais, ambientais e urbanísticas. Neste caso, o imóvel do morador descumpre sua função social ao se tornar fonte de degradação ambiental e risco sanitário, com acúmulo de resíduos e criação desordenada de animais que afetam toda a vizinhança e o meio ambiente local.

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L

Legitimidade

Aptidão para ser parte em determinado processo — quem pode propor a ação e contra quem ela pode ser proposta. Neste caso, o Ministério Público tem legitimidade ativa para ajuizar a ação civil pública em defesa do meio ambiente (direito difuso). O Município figura como réu por ser responsável pela fiscalização ambiental e sanitária em seu território. O morador também é réu, na condição de proprietário do imóvel e gerador direto dos resíduos.

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Liberdade moral

Conceito filosófico-jurídico que designa a capacidade do indivíduo de se autodeterminar conforme a razão e o senso de dever, distinguindo-se da liberdade natural (fazer o que se quer). Neste caso, o Des. Jair Varão invocou Rousseau para observar que a liberdade verdadeira pressupõe a obediência à lei que se prescreve a si mesmo. O morador, em razão de seu transtorno mental, tem comprometida essa capacidade de autogoverno, o que fundamenta a intervenção do Município para garantir o cumprimento da obrigação ambiental.

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M

Meio ambiente ecologicamente equilibrado

Direito fundamental de todos a um ambiente saudável, impondo ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo. Neste caso, o acúmulo de resíduos, dejetos e a criação de animais em condições insalubres no imóvel do morador compromete o equilíbrio ambiental local, afetando a saúde dos vizinhos, a qualidade do ar e do solo, e favorecendo a proliferação de vetores de doenças.

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O

Obrigação de fazer

Dever imposto a alguém de realizar determinada conduta. Neste caso, a sentença mantida pelo TJMG impôs ao Município duas obrigações de fazer: remover mensalmente os resíduos acumulados no imóvel do morador e fiscalizar as condições sanitárias do local, incluindo inspeção dos animais. Ao morador, impôs obrigação de não fazer: abster-se de acumular novos resíduos.

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P

Partes

Os sujeitos da relação processual: quem pede (autor) e contra quem se pede (réu). Neste caso, as partes são: de um lado, o Ministério Público de Minas Gerais (autor da ACP) e, de outro, o Município de Além Paraíba e o morador portador de transtorno mental (réus). Na fase de apelação, o Município é o apelante (recorrente) e o MPMG e o morador são os apelados.

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Pedido

O que o autor solicita ao juiz. Neste caso, o MP pediu: (a) que o Município seja obrigado a remover mensalmente os resíduos acumulados no imóvel; (b) que o Município fiscalize e inspecione os animais existentes no local; e (c) que o morador se abstenha de acumular novos resíduos. O pedido é de tutela específica — obrigações de fazer e de não fazer —, não de indenização em dinheiro.

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Poder de polícia ambiental

Faculdade do Poder Público de restringir e fiscalizar atividades particulares em prol do interesse coletivo, aqui especificamente voltada à proteção ambiental e sanitária. Neste caso, o Município detém poder de polícia para fiscalizar o acúmulo de resíduos e as condições de salubridade no imóvel do morador, conforme seu Código de Posturas. A omissão no exercício efetivo desse poder fundamentou a condenação: o TJMG entendeu que o Município não pode alegar impossibilidade quando dispõe dos instrumentos legais e operacionais para agir.

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Poluidor

Pessoa física ou jurídica, de direito público ou privado, responsável direta ou indiretamente por atividade causadora de degradação ambiental. Neste caso, o morador é o poluidor direto — é ele quem acumula resíduos e cria animais em condições insalubres. O Município, por sua vez, foi considerado corresponsável na condição de poluidor indireto, por se omitir no exercício do poder de polícia ambiental que lhe compete.

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Pretensão

O que cada parte quer obter no processo — o resultado prático que cada uma busca. Neste caso, a pretensão do MP é que o Município assuma a responsabilidade pela remoção periódica dos resíduos e fiscalize o imóvel para proteger a saúde pública e o meio ambiente. A pretensão do Município (na apelação) é afastar essa obrigação, transferindo-a integralmente ao morador como proprietário-poluidor direto. A tensão central do caso reside justamente na impossibilidade fática de o morador cumprir essa obrigação.

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R

Responsabilidade ambiental

Dever de reparar ou cessar danos ao meio ambiente, independentemente de culpa (responsabilidade objetiva). Neste caso, a responsabilidade ambiental recai tanto sobre o morador (poluidor direto) quanto sobre o Município (poluidor indireto por omissão). O TJMG reconheceu que, embora a regra geral imponha ao poluidor direto o dever de reparação, as circunstâncias excepcionais — o transtorno mental do morador e a reiterada reacumulação após limpezas — justificam a imposição direta da obrigação ao Município.

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Responsabilidade solidária

Situação em que dois ou mais responsáveis podem ser cobrados pela totalidade da obrigação, cabendo ao credor escolher contra quem agir. Neste caso, o TJMG reconheceu a responsabilidade solidária entre o Município e o morador pelo dano ambiental. Na prática, porém, como o morador é incapaz de cumprir a obrigação de limpeza em razão do transtorno mental, a solidariedade resulta na imposição direta ao Município, que dispõe dos meios materiais e do poder de polícia para executá-la.

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Réu

A parte contra quem a ação é proposta. Neste caso, há dois réus: o Município de Além Paraíba e o morador portador de transtorno mental. O Município é réu por sua responsabilidade como ente fiscalizador; o morador é réu como proprietário do imóvel e poluidor direto. Na apelação, o Município passou a figurar como apelante, contestando a obrigação que lhe foi imposta.

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T

Tutela de urgência

Medida judicial concedida antes ou durante o processo para evitar dano irreparável ou de difícil reparação. Neste caso, a urgência decorre do risco contínuo à saúde pública e ao meio ambiente: o acúmulo de resíduos e dejetos, aliado à proliferação de insetos, roedores e às condições insalubres dos animais, exige providência imediata que não pode aguardar o trânsito em julgado. A Vigilância Sanitária já havia classificado o local como “totalmente insalubre”.

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Z

Zoonose

Doença transmitida de animais para seres humanos. Neste caso, a criação de cães, patos e galinhas em condições inadequadas no imóvel do morador, somada à proliferação de roedores e insetos atraídos pelo acúmulo de resíduos, cria ambiente propício à disseminação de zoonoses na vizinhança. Esse risco sanitário reforçou o fundamento para a intervenção estatal e a obrigação de inspeção periódica dos animais.

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Material Complementar

Caso principal de referência: Acúmulo de Resíduos Sólidos e Responsabilidade Ambiental do Município

Precedentes Citados no Acórdão

O acórdão analisado não cita precedentes com numeração específica de processo, Tema vinculante ou Súmula no corpo dos votos. A fundamentação desenvolve-se a partir da legislação aplicável (Política Nacional de Resíduos Sólidos, Código Civil, Constituição Federal) e de referência doutrinária, sem remissão expressa a julgados anteriores.

A única referência doutrinária identificada no acórdão é a obra de Jean-Jacques Rousseau, Do Contrato Social (Edipro, 2020), citada no voto vencedor para fundamentar a noção de liberdade moral e responsabilidade coletiva perante o pacto social.

Outros Precedentes Relevantes

DOMINANTE STJ — EDcl no REsp 1.765.223

Min. Herman Benjamin — 2ª Turma — j. 21.05.2019

Tema: Ação civil pública contra município para imposição de obrigações de fazer relativas à coleta, depósito, tratamento e descarte adequado de resíduos sólidos urbanos.

Relevância para o caso: Confirma a viabilidade de obrigações de fazer impostas ao Município em matéria de gestão de resíduos sólidos por meio de ACP, fundamento nuclear do acórdão analisado.

DOMINANTE STJ — REsp 1.712.936

Min. Herman Benjamin — 2ª Turma — j. 03.05.2018

Tema: Improbidade administrativa ambiental por omissão de gestor público na destinação de resíduos sólidos. Descumprimento do art. 54 da Lei 12.305/2010 (Política Nacional de Resíduos Sólidos).

Relevância para o caso: Reforça que a omissão do gestor municipal na destinação adequada de resíduos não é mera opção administrativa, mas dever legal cuja violação pode configurar improbidade — dimensão que amplia a fundamentação da responsabilidade subsidiária reconhecida no acórdão.

DOMINANTE TJMG — Ap. Cível 1.0000.24.422517-3/001

Des. Marcus Vinícius Mendes do Valle — j. 06.02.2025

Tema: Omissão do município no exercício do poder de polícia ambiental. Responsabilidade solidária. Admissibilidade de multa cominatória contra a Fazenda Pública.

Relevância para o caso: Caso com fundamento idêntico — omissão municipal + poder de polícia —, fortalecendo a tese adotada no acórdão.

Distinção: Não envolve acumulação compulsiva (hoarding) nem a tensão entre responsabilidade ambiental e incapacidade fática do poluidor por transtorno mental, que constitui o núcleo diferenciador do caso principal.

DOMINANTE TJMG — Ap. Cível 1.0000.25.390484-1/001

Des. Arnaldo Maciel — j. 04.02.2026

Tema: Queima de resíduos em aterro sanitário. Responsabilidade concorrente do município por falha na fiscalização e operação.

Relevância para o caso: Amplia o espectro de responsabilização municipal para além da simples omissão, alcançando a gestão deficiente de aterros — cenário que tangencia a ausência de infraestrutura discutida no acórdão.

DOMINANTE TJMG — Ap. Cível 1.0000.25.252651-2/001

Des. Renato Dresch — j. 18.11.2025

Tema: Multa ambiental aplicada contra município por destinação irregular de resíduos. Tríplice responsabilidade ambiental (civil, administrativa e penal).

Relevância para o caso: Reafirma que a responsabilidade ambiental do município opera em três esferas independentes, ponto implícito na fundamentação do acórdão ao impor obrigações de fazer cumuladas com astreintes.

DOMINANTE TJMG — Ap. Cível 1.0701.05.134187-6/002

Des. Albergaria Costa — j. 11.11.2010

Tema: Responsabilidade solidária do município omisso no exercício do poder de polícia ambiental. Teoria do risco integral em matéria ambiental.

Relevância para o caso: Precedente fundador no TJMG sobre a teoria do risco integral aplicada à omissão municipal, base teórica que sustenta a responsabilidade objetiva afirmada no acórdão analisado.

Distinções e Convergências

Teses Convergentes

  1. Responsabilidade objetiva e solidária por omissão no poder de polícia ambiental. Todos os precedentes selecionados reconhecem que a inação do Município no exercício do poder de polícia gera responsabilidade solidária com o poluidor direto, em alinhamento com o art. 225 da Constituição, o art. 14, § 1º, da Lei 6.938/1981, e a Lei 12.305/2010.
  2. Obrigações de fazer não são discricionariedade administrativa. A jurisprudência dominante, tanto no STJ quanto no TJMG, afasta a tese de que a imposição de obrigações de fazer ao Município violaria a separação de poderes.
  3. Multa cominatória admissível contra a Fazenda Pública. Astreintes são instrumento legítimo para assegurar o cumprimento de obrigações ambientais, mesmo contra ente público.
  4. Tríplice responsabilidade ambiental. A responsabilidade ambiental opera simultaneamente nas esferas civil, administrativa e penal, de forma independente.

Fundamentos Normativos Recorrentes

  • CF, art. 225 — direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado
  • Lei 6.938/1981, art. 14, § 1º — responsabilidade objetiva do poluidor
  • Lei 12.305/2010 — Política Nacional de Resíduos Sólidos

Lacuna Identificada

Nenhum dos precedentes trata especificamente da acumulação compulsiva (hoarding disorder) e sua interseção com o direito ambiental. O caso principal é pioneiro ao articular a tensão entre responsabilidade ambiental objetiva e incapacidade fática do poluidor por transtorno mental, impondo ao Município não apenas a reparação ambiental, mas também o dever de acompanhamento social e de saúde.

Contexto Jurisprudencial

Responsabilidade Solidária e Execução Subsidiária em Matéria Ambiental

A área temática central deste caso envolve a responsabilidade solidária com execução subsidiária do ente público em matéria ambiental. A posição dominante no TJMG — alinhada à jurisprudência consolidada do STJ — reconhece que, embora a responsabilidade ambiental seja objetiva e solidária entre todos os causadores do dano, a execução contra o Poder Público possui caráter subsidiário: o Município somente é chamado a reparar quando o poluidor direto não dispõe de meios para fazê-lo.

Tensão Central do Caso

A tensão jurídica que atravessa o acórdão reside no confronto entre a responsabilidade objetiva do poluidor e a incapacidade fática do agente por transtorno mental. O voto majoritário reconheceu que a condição de saúde mental da parte não afasta a ilicitude da conduta nem a responsabilidade objetiva em matéria ambiental, mas justifica a transferência da obrigação de fazer ao Município, que detém o dever constitucional de zelar pelo meio ambiente e pela saúde pública.

Divergência: Voto Vencido

O Desembargador Pedro Aleixo, em voto vencido, sustentou que a via adequada seria a interdição civil da parte, e não a imposição direta de obrigação de fazer ao Município. Para o magistrado divergente, a responsabilização subsidiária do ente público, sem o prévio esgotamento das medidas de proteção à pessoa incapaz, inverteria a lógica do sistema de responsabilidade ambiental e criaria um precedente de ampliação indevida da obrigação municipal.

Posição Dominante

DOMINANTE A responsabilidade ambiental é objetiva e solidária. A execução subsidiária contra o Município é admitida quando o poluidor direto não reúne condições de cumprir a obrigação, especialmente em situações de vulnerabilidade social ou de saúde mental que comprometam a capacidade de agir.

Classificação de Força dos Precedentes

  • VINCULANTE
    Decisão de observância obrigatória (súmula vinculante, decisão em controle concentrado, recurso repetitivo).
  • DOMINANTE
    Posição majoritária nos tribunais superiores ou na jurisprudência do tribunal de origem.
  • MINORITÁRIO
    Entendimento adotado por parcela reduzida da jurisprudência, mas com fundamentação relevante.
  • ISOLADO
    Decisão pontual, sem repercussão significativa na jurisprudência consolidada.