Ensaios e textos autorais — série “Quem Duvida Sabe”.
Entre 19 e 21 de abril — o Dia dos Povos Originários e o enforcamento de Tiradentes — duas liberdades se cruzam: a que nasce no corpo que respira e a que nasce na praça que clama. A floresta não é fuga; é preparo. O mediador que não regula o próprio corpo é regulado pelo corpo dos outros.
Marina encontrou insetos num pacote de arroz lacrado. Não comeu, não adoeceu. O TJSP chamou de mero aborrecimento; o STJ discordou. Mas a pergunta que o caso deixa não é sobre ela — é sobre a fronteira, ainda porosa, entre o risco que toleramos e o dano que reconhecemos.
Na semana seguinte àquela conversa sobre o sistema de IA, voltei a encontrar meu colega. “Sabe aquela revisão rapidinha que a gente fazia? Descobrimos que em três casos seguidos, todos aprovamos a mesma sugestão errada do sistema.”
Um hospital público. Uma paciente internada. Dois médicos assinando o mesmo laudo: urgência, risco de embolia, risco de morte.
Semana passada, em uma reunião de trabalho, ouvi algo que me fez parar. Um colega descrevia um sistema de IA que já sugere a tese, os precedentes, até um rascunho de petição. “A gente só precisa revisar rapidinho e protocolar.”