A floresta respira devagar.
Árvores altas, troncos serenos, copas que se tocam no alto sem se reclamar umas às outras. A luz chega filtrada, em raios oblíquos, pelas frestas das folhas. Não há mapa. Não há destino. Há apenas o farfalhar das folhas, o som distante de um pássaro, a água que corre em algum lugar — e um corpo que entra, passo a passo, sem pressa. Este corpo é o seu. Ou pelo menos foi, nos dez minutos em que você permitiu que fosse.
A floresta é uma meditação. Foi publicada hoje, 21 de abril, no canal UNMANI PRESENÇA, primeiro episódio de uma série chamada Âncoras. Dez minutos antes do dia começar; dez minutos entre acordar e sentar à mesa onde esperam um processo, uma audiência, uma mediação de conflito alto. O mediador como jardineiro silencioso, a audiência como trilha sem mapa, a árvore como posição possível do corpo diante da tempestade — permaneça árvore, diz o roteiro, enraizada, serena, presente. Até aqui, uma prática individual. Íntima. Quieta. Privada. E, se parássemos aqui, também insuficiente.
Mas e se a floresta não for só sua?
O calendário desta semana insiste em não deixar que seja. Anteontem, 19 de abril, o Brasil comemorou o Dia dos Povos Originários — e a floresta deixou de ser metáfora para virar território em disputa, cosmologia ameaçada, língua falada. Hoje, 21, Tiradentes foi enforcado há duzentos e trinta e quatro anos na Praça da Lampadosa, no Rio de Janeiro. O corpo esquartejado, as partes espalhadas pela estrada de Minas para servir de exemplo. Não foi meditação. Foi praça. Foi público. Foi coletivo — de uma maneira que a Coroa tentou tornar exemplar e terminou tornando inesquecível.
Entre 19 e 21, dois modos de entender liberdade.
O primeiro nasce no corpo. A tradição tântrica do yoga — e, antes dela, as práticas xamânicas dos povos da floresta — entendeu há milênios que o sistema nervoso é o primeiro território da soberania. Quem não regula o próprio corpo é regulado pelo corpo dos outros. Quem não respira dentro de si não escuta o que há dentro do outro. A liberdade começa aqui, no diafragma, na coluna ereta, na base estável sobre a cadeira, na capacidade de permanecer diante do espinho alheio sem se tornar ele. A neurociência contemporânea chama isso de engajamento parassimpático ventral; o tantra chamou de outra coisa, e os povos originários, de muitas outras coisas, em muitas línguas que a empresa colonial se esforçou por apagar.
O segundo modo nasce na praça. Tiradentes não meditou. Conspirou, falou demais talvez, ofereceu o corpo quando poderia ter negociado degredo como os outros inconfidentes. Foi feito bode expiatório — termo que a historiografia consagrou não por elegância literária, mas por precisão: enquanto os demais tiveram a pena comutada, ele foi enforcado, decapitado, esquartejado, exposto. Seu corpo individual virou linguagem coletiva. A república, um século depois, construiu o mártir que o império tinha tentado apagar — e construiu também, convenhamos, a imagem crística um tanto conveniente do cordeiro imolado pela pátria. O Tiradentes do século XIX é personagem histórico. O Tiradentes do século XX é artefato republicano. Os dois são verdadeiros, e esta é a primeira complicação que a crônica precisa assumir.
Registre-se: são duas liberdades, aparentemente incompatíveis. A individual, que parece convidar à retirada do mundo — o eremita, o meditador, o corpo em pose de flor de lótus alheio ao que ruge lá fora. A coletiva, que parece exigir o corpo na praça, no movimento, no grito, no oferecimento. Uma olha para dentro; a outra, para fora. Uma silencia para escutar; a outra, clama para ser ouvida. E a modernidade ocidental, fiel ao hábito cartesiano de cortar onde poderia ligar, nos entregou essas duas liberdades como se fossem estantes separadas de uma mesma biblioteca — quando os povos da floresta nunca precisaram dessa estante, e quando o próprio Tiradentes, no instante final, precisou de uma regulação interna que a história não registra mas o cadafalso certamente cobrou.
A cisão é colonial. A reunião é o que está por fazer.
É neste ponto preciso que UNMANI PRESENÇA se situa — não como acréscimo espiritual ao currículo do mediador, mas como costura entre duas liberdades que a modernidade separou. A meditação Floresta prepara o corpo para a audiência. A audiência, quando bem conduzida, prepara o conflito para uma saída que não reproduz a opressão estrutural que o gerou. E a saída, quando encontrada, participa — minúscula mas realmente — daquilo que Herrera Flores chamaria de processos culturais emancipadores. O jardineiro silencioso da floresta e o inconfidente da praça não estão em estantes separadas. Estão no mesmo corpo — o seu — em tempos diferentes do mesmo dia.
A pergunta do mediador não é, portanto, por que meditar? A pergunta do mediador é para quem? Quem escuta de dentro, escuta o outro — e quem escuta o outro, em situação de conflito fundado em opressões que atravessam gerações, faz política. Política miúda, política sem discurso, política que não cabe em placa de manifestação — mas política, afinal, porque reorganiza um pedacinho do tecido social que a história colonial nos deixou rasgado. Não há mediação restaurativa sem mediador regulado. E não há mediador regulado sem prática. E não há prática sem corpo. E não há corpo que se regule no vazio — ele se regula para alguma coisa.
A floresta não é fuga. É preparo.
O que UNMANI PRESENÇA propõe — e o que esta crônica gostaria de propor ao leitor, no dia em que a república comemora o único corpo que se negou a negociar — é que o individual e o coletivo não são estações de um trajeto, mas faces de uma mesma prática. Você medita para estar inteiro. Está inteiro para escutar. Escuta para que o conflito encontre saída que não reproduza a violência que o fundou. E a saída, quando encontrada, é o Tiradentes possível da sua manhã — não o do cadafalso, graças a Deus, mas o do corpo disposto a permanecer presente onde outros desistiram.
A floresta é sua. Mas não é só sua.
Entre o silêncio do tronco e o grito da praça, em que ponto exato você está, hoje, às nove da manhã — quando o primeiro nome for chamado, o primeiro processo for aberto, a primeira dor alheia entrar na sala onde você escolheu estar?
Publicado originalmente no LinkedIn.




